news SETEMBRO.09
 Notas

Com abertura dia 22 de setembro, e temporada até 23 de outubro, a Paulo Darzé Galeria de Arte apresenta a exposição de Thomaz Ianelli, onde o público baiano poderá ver pela primeira vez na Bahia a mostra individual de um artista que no dizer de Theon Spanudi “criou um novo mundo de expressividade pictórica”. Pintor, Ianelli dedicou-se também ao desenho, à gravura, e esculturas (assemblages), trazendo a tona na arte brasileira uma expressividade pictórica, original por sua sofisticação e invenção criativa, transitando do figurativo a abstração informal, numa obra fluente, lírica, de grande colorido. Thomaz Ianelli nasceu em São Paulo, em 1932. Faleceu na mesma cidade em 2001.

• A Paulo Darzé Galeria de Arte (Rua Chrysippo de Aguiar, 08, Corredor da Vitória, CEP 40081.310 – Salvador – Bahia – Brasil, Tel.: (71) 3267.0930 www.paulodarzegaleria.com.br, está aberta a visitação pública de segunda a sexta, das 9 às 19 horas, e sábados das 9 às 13 horas.

reportagem Mário Cravo Neto
 

Mário Cravo Neto nasceu em 20 de maio de 1947, em Salvador, Bahia, tendo falecido na mesma cidade em 9 de agosto de 2009. Aos 17 anos, muda-se para a Alemanha, dando início as suas experiências com escultura e fotografia. No ano de 1965 retorna ao Brasil. É premiado na I Bienal de Artes Plásticas da Bahia e faz sua primeira exposição individual. Entre 1968 e 1970, vive em Nova Iorque, onde estuda na Art Student League, sob a orientação do artista plástico Jack Krueger, um dos precursores da arte conceitual. Em 1970 publica sua primeira fotografia fora do Brasil no catálogo da exposição Information, Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Ainda em Nova Iorque produz a série de fotografias em cores intitulada On the Subway, publicada na revista Camara 35, e fotografias em preto-e-branco que abordam o aspecto da solidão humana na grande metrópole. É em seu estúdio no Soho que desenvolve, paralelamente à fotografia, as esculturas em acrílico baseadas no processo do “terrarium”, envolvendo o crescimento de plantas vivas em ambientes fechados, que apresenta, em sala especial, na XI Bienal Internacional de São Paulo, em 1971, recendo o Prêmio de Escultura Governador do Estado de São Paulo. Durante os anos de 1971 a 1974, dedica-se à criação de projetos “em sítio” (land art), interferindo diretamente na natureza do sertão baiano e no perímetro urbano de sua cidade natal. A documentação sistemática desses trabalhos lhe proporciona intimidade com a linguagem cinematográfica. É nesse contexto que realiza diversos curtas-metragens. Em 1976, recebe o Prêmio Nacional da Embrafilme, pela direção de fotografia do longa-metragem Ubirajara, do diretor André Luis Oliveira. Em razão de um acidente automobilístico, em 31 de março de 1975, é forçado a permanecer com ambas as pernas imobilizadas por um ano. Esta circunstância, porém, não interrompe sua produção. Nesse período trabalha em maquetes de seus projetos tridimensionais e volta a sua atenção para o retrato em estúdio, para a apropriação de objetos e para a utilização desses objetos em suas instalações e nas composições das fotografias. Surge assim um trabalho único, autoral, no qual Cravo Neto cria, a partir da integração que promove entre personagem e objeto, o que podemos chamar de fotografias-esculturas em preto-e-branco. São dessa fase o Ninho de Fiberglass, 1977, e Câmaras Queimadas, 1977, criações emblemáticas, expostas respectivamente nas XIV e XVII Bienal Internacional de São Paulo. Essas obras são mais tarde comentadas por Edward Leffingwell, no prefácio do livro The Ethernal Now, 2002, a mais completa monografia de Mario Cravo Neto, contendo 136 fotografias em preto-e-branco em estúdio.


Mesmo antes da publicação do The Eternal Now, as fotografias em preto-e-branco são amplamente mostradas em diversas exposições e editadas em vários livros e catálogos. Das várias exposições, destacam-se: em 1988, Pallazo Fortuny, Veneza; em 1992, Witkin Gallery, Nova Iorque e Houston FotoFest, Houston; em 1995, Museu de Arte de São Paulo, São Paulo; em 1998, Fahey Klein Gallery, Los Angeles e Photo España, Real Jardín Botânico de Madrid, quando o artista mostrou impressões fotográficas em grande formato, expostas ao ar livre. Em 1994 publica Mario Cravo Neto, Edition Stemmle, Zürich, que acompanha uma exposição individual no Frankfurter Kunstverein, Frankfurt, com curadoria e edição de Peter Weiermair, sendo seu primeiro livro com fotografias em preto-e-branco editado fora do Brasil. No ano de 2000 viaja à Dinamarca a convite de Tove Thage, diretora do Nationalhistoriske Museum på Frederiksborg, Hillerød, para fotografar os mais importantes coreógrafos e bailarinos do Danish Royal Ballet e realizar uma exposição no mesmo museu.

Simultaneamente à produção em estúdio, Cravo Neto vive e retrata em cores sua cidade, Salvador, terra do sangue misturado, onde convivem santos católicos e deuses da África -- a cidade do São Salvador da Baía de Todos os Santos -- território único e farto que instiga o artista e é tema de sete dos seus livros, publicados entre 1980 e 2000. Desses livros, os mais significativos são: Cravo, Áries Editora, 1983, Exvoto, Áries Editora, Salvador, 1986; Salvador, Áries Editora, Salvador, 1999; e Laroyé, Áries Editora, Salvador, 2000.


Algumas viagens marcam especialmente a produção de Mário Cravo Neto, seja de maneira objetiva, gerando um livro ou uma mostra, seja de maneira subjetiva, fazendo conexões entre o mundo interior e exterior, fronteira que não se estabelece no seu trabalho. A experiência de um mês a bordo de um navio-hospital da Marinha do Brasil no rio Solimões, Amazônia em 1990, ou mesmo a ida a Luanda, Angola, para produzir as fotografias do livro Angola e a Expressão da sua Cultura Material, FEO, Salvador, 1991, que lhe pôs em contato com o acervo do Museu Nacional de Antropologia de Angola, certamente fazem parte do percurso que o leva, em 1998, ao interior dos terreiros. É a partir desse ano que Cravo Neto se aproxima do culto afro-baiano e, por sete anos consecutivos, se dedica a fotografar e gravar em vídeo a vida e os rituais do culto, em especial do terreiro Ilé Àse Ópó Aganju.


Dessa fase o artista publica três livros, em todos fazendo uso da composição mista de imagens em cor e em preto-e-branco para abordar, com a densidade de um iniciado, a religiosidade afro-baiana. Em 2003, apresenta a instalação e o livro Na Terra Sob Meus Pés, CCBB -- Rio de Janeiro; Trance-Territories, Verlag Das Wunderhorn Heidelberg, 2004; E o seu mais recente livro, O Tigre do Dahomey - A Serpente de Whydah, Áries Editora, Salvador, 2004, editado por ocasião da mostra de inauguração do novo espaço da Paulo Darzé Galeria de Arte, Salvador, e posteriormente exibido no Museu Afro-Brasil, São Paulo, em 2005.


Transitando em águas profundas do mundo criativo, do inconsciente, Mário Cravo Neto produz uma obra e expressa a cultura de sua terra. Este texto trajetória é apenas uma tentativa de síntese dessa impressionante produção que, até o presente, gerou a edição de 14 livros em diversos países; inúmeras matérias em jornais e revistas; mostras individuais e coletivas no Brasil e no exterior; nove prêmios; a participação em coleções de diversos museus; fazendo deste artista referência em dezenas de publicações sobre fotografia, além da entrada para a Encyclopédie Internationale des Photographes, Carole Naggar, Édition de Seuil, Paris, 1982 e Encyclopédie Internationale des Photographes, 1939-1984, Michel Auer, Editions Camera Obscura, Berne, 1984 e para o Dictionnaire Mondial de Photographie, Larousse, Paris, 1994.


Exposição
Mário Cravo Neto
Apresentando 21 imagens que integram a exposição “The eternal now “a Paulo Darzé Galeria de Arte apresenta de 9 a 13 de setembro na SP-Arte/Foto/2009, com curadoria de Charles Cosac, no Shopping Iguatemi, São Paulo, a mostra Homenagem a Mário Cravo Neto. Primeiro artista da Galeria a participar deste evento, a São Paulo Foto, em 2006, Mário Cravo Neto estava a participar da montagem desta exposição, quando no dia 9 de agosto, veio a falecer. O que era mais uma exposição dos belíssimos trabalhos deste que é considerado um dos artistas brasileiros de maior presença internacional, com uma obra que expressa a cultura de sua terra, apresentada através de mostras individuais e coletivas no Brasil e no exterior, nos quatorze livros editados em vários países, participação em coleções de diversos museus, nove prêmios, como o da XI Bienal Internacional de São Paulo, 1971, e referência em dezenas de publicações sobre fotografia, além de verbete na Encyclopédie Internationale dês Photographes, Carole Naggar, Édition de Seuil, Paris, 1982; Encyclopédie Internationale des Photographes, 1939-1984, MichelAuer, Editions Camera Obscura, Berne, 1984; e no Dictionnaire Mondial de Photographie, Larousse, Paris, 1994, veio a se tornar uma mostra Homenagem, uma exposição que mais uma vez nos deixa ver uma arte que pode ter sempre como título um dos seus livros e exposição – O eterno agora. A obra de Mário Cravo Neto, por ser sempre agora, tornou-se eterna. Suas imagens falam por nosso tempo.
Mário Cravo Neto

Tema é só um ponto de partida, nunca o fim da linha.


E se o tema é o fotógrafo e não a fotografia que ele faz, deslocamos o eixo de nosso olhar para a nossa memória. Mas muito das nossas memórias estão ocultas aos nossos próprios olhares, estes mesmos olhares que se acostumaram um dia, estamos falando de mais especificamente de cerca de quarenta e cinco anos de devoção a prática criativa da fotografia e da escultura realizada por Mário Cravo Neto, imagens que nos iniciaram a ver imagens processadas em unidades, dipticos, tripticos, séries, livros e exposições, todas emergentes de um processo poético que surge do que chamou uma espécie de aroma que expande a sua nascente nos seus afluentes, oriunda de uma cultura, gente e geografia denominada de Bahia.

O caminho para aprender arte é um refrão, em arte não tem nada para se aprender! Ou você faz o drama ou se consome no drama.

Mudo um pouco o roteiro das perguntas para que fiquem mais update com o contexto: existe matéria e espírito, misticismo e lógica, com suas variáveis dependendo do contexto cultural em que se apliquem. Não creio que "corpo" seja sinônimo de matéria, já que hoje os físicos já a tratam como matéria sutil. Na nossa cultura baiana, se olharmos em nossa volta encontramos - árvores e pedras que comem, corpos que se banham, cabeças que bebem, então que universo é este do qual estamos falando?


As dimensões físicas são uma bobagem. É um artifício que o artista usa para que traga o espectador distante para perto da obra.


A vida é revelação em qualquer nível, apenas necessita de mais compreensão, mais amor, mais pensamento positivo, menos problemas, revoltas, discussões e trapaças, e que em muitas das horas, às vezes, me faz sentir cansado por ser humana.


Para neste momento expressá-lo como tema deste texto, ciente de que nada melhor para falar de um poeta que recorrermos a sua poesia, e que no caso de Mário Cravo Neto seria nos deixarmos ficar diante das suas fotografias, disponível em quinze livros, e que estão aí a nossa disposição, ou em mostras e exposições que continuarão existindo, como homenagem ou lembrança ou capítulo da história da arte deste nosso tempo, visível neste momento na SP foto, ou este nosso tempo em seus retratos p/b e em cores, registro, documento, arte, buscamos na memória de conversas, realçada por uma sua entrevista, o que dissemos mais acima, ou em termos mais abrangentes, que a vida siga o que um dia considerou sendo uma velha questão - o sol se levanta ilumina de forma rasante a superfície da terra, aí fica mais tarde e as sombras como geleiras desaparecem ou se dispersaram, depois vem o meio dia e fica tudo "flat" - pós "noon" o processo recomeça no sentido inverso dos ponteiros e assim passa o dia.


Assim passa a vida.


O eterno retorno.


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