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A Paulo Darzé Galeria de Arte apresenta pela primeira vez na Bahia, com abertura de exposição no dia 22 de outubro, com temporada até 16 de novembro, a exposição do artista contemporâneo espanhol Uiso Alemany. Conjuntamente com a mostra, toda ela criada e produzida na cidade do Salvador, onde ficou durante um período morando num atelier na Ladeira do Desterro, será também lançado o livro que leva o nome da rua onde viveu e trabalhou, com apresentação do artista e crítico de arte Justino Marinho, e do crítico espanhol Fernando Castro Flórez.
Uiso Alemany nasceu em Valencia, Espanha, em 1941. Aos treze anos ingressa na Escola de Artes Aplicadas, e aos dezoito realiza sua primeira individual. Sua trajetória o leva a viagens de estudos a Holanda e Bélgica, e a residir durante certo tempo em variados países como Alemanha, França e Portugal. É um dos fundadores do Grupo BULTO. Em 1975, a Universidade de Valencia dedica um colóquio sobre sua arte. Além dos países europeus, expôs em Cuba, México. Argentina, Uruguai, e Israel. No Brasil realizou mostras nos Museus de Arte Contemporânea de São Paulo, Recife e Fortaleza. É a sua primeira exposição na Bahia.
Representante atual de uma tradição criativa que é a arte espanhola, especialmente a Valenciana, aberto a uma vivência claramente cosmopolita, Uiso Alemany possui uma pintura densamente inconformista, inquieta, de artista intenso, com uma obra repleta de dicções e matizes numa atitude criativa que busca as possibilidades extremas da pintura, por meio de uma gestualidade impregnada ao desenho, trazendo nela desde uma potência dos primitivos, a passagem pelo surrealismo, a um expressionismo abstrato, pelo imediatez do imaginário. – Minhas obras são uma forma de interpretar as coisas que me rodeiam. Elas têm algo de lirismo e muito de humano.
1) Algumas de suas exposições foram realizadas pelo que você denomina no seu perfil biográfico como “estage”. O que o leva a criar tendo como movimento uma mudança de espaço, de território?
Acho que para os artistas as motivações são muito diversas. No meu caso a arte, a pintura, é uma aventura maravilhosa. Mudar de espaço, de território, geralmente desconhecido e assim uma experiência que alimenta o meu espírito como a minha imaginação. Conhecer gente diferente, idiomas, às vezes pouco conhecidos, e também ateliers com espaço estranhos formam parte desta aventura.
2) Nesta nova realidade como seleciona os fragmentos que o interessam para sua pintura?
Para mim a forma de pintar é uma linguagem, assim como temos uma forma de escrever, os nossos diferentes timbres da voz. Quando mudo de lugar, algo vai se modificar, talvez inconscientemente, porém seguramente quero gestos da gente, cheiros, músicas, que vão ter alguma influência e com isto enriquecer a minha obra.
3) Por que e quais as circunstâncias dos locais que chamam sua atenção, ou fazem ter uma unidade nesta estadia?
No atelier habitual, quando você passa muito tempo nele, acaba ficando um tirano que afoga os seus ideais, os seus horizontes. Sair da minha cidade, Valência, mudar dez vezes de atelier, e ir para o estrangeiro ainda muito mais. A forma de pintar não é a mesma quando pinta-se no ar livre, ou num espaço de 50m², 2000m², 10000m², onde se trabalhe. Não é o mesmo pintar num espaço com o teto a 3m e num outro que terá 15m. Pintar dentro de uma igreja é tão emocionante como dentro dum submarino. Isto faz os novos espaços muito interessantes.
4) Você tem séries de pintura e livro sobre Cuba e Mali. Há um pouco destes dois agora em Salvador? Quais histórias unem seus estágios?
O fio condutor ao longo da minha obra foi quase sempre o meu interesse pelo primitivo, por essas sociedades que conservam algo de ancestral convivendo ainda com uma cultura metropolitana. Acho que Salvador conserva algo disto, e é impressionante observar como a convivência de tantas culturas, de algumas etnias de origem africana, a torna uma cidade maravilhosa, com uma cultura absolutamente brasileira, e que, como digo no meu prólogo do livro da exposição, é uma cidade onde vejo morar a pintura.
5) Pintar nos locais, num novo espaço, faz que sua arte exija a presença física para pintura existir?
A arte, a pintura, não precisam de nenhum espaço especial. Elas são patrimônio do ser humano. A pintura ou a arte se pode encontrar em qualquer lugar do mundo, como em qualquer latitude, mas sempre será o indivíduo que vai fazer que aconteça.
6) Você precisa deste cotidiano par exercer sua criação na pintura?
Para mim mudar de espaços não é uma necessidade, mas absorver todas as sensações que me procuram os diferentes lugares, as diferentes culturas, aportam vibrações novas, sempre bem-vindas.
7) Seria isto uma forma de seu testemunho do mundo, de sua época e dos locais e pessoas? Ou apenas uma impressão dos lugares por onde passou?
Acho que a arte e a pintura, não são uma coisa trivial ou decorativa. O artista plástico não pode ser um notário do que acontece no mundo. Não me interessa refletir a “realidade” dos lugares, mas tento falar do que a minha sensibilidade é capaz de absorver, algumas vezes, numa clave abstrata.
8) Quanto tempo ficou na Bahia, na ladeira do Desterro, para criar esta exposição?
A Ladeira do Desterro e a rua onde fica a Galeria Paulo Darzé estiveram a minha disposição, num magnífico atelier. Estive trabalhando cerca de três meses, vivendo e pintando vinte e quatro horas diariamente.
9) E como foi sua vivência com a gente e os caminhos da cidade do Salvador?
Salvador é uma cidade muito especial. Eclética, aberta ao mar, e maravilhosa. Têm bairros muito peculiares, alguns com algo de perigo. Que cidade atual está livre dessa condição? É possível que a magia esteja na sua gente, sempre afetuosa, amável, calorosa, com boa disposição para a amizade, a festa, e a vida mesma.
10) Passando para sua arte, um dos críticos que analisa sua obra, Fernando Castro Flórez, afirma que sua arte é “dar forma ao caos”. Como analisa este comentário?
O crítico que fala do meu trabalho como uma arte que dá forma ao caos, segue a minha trajetória desde muito tempo atrás, escreveu alguns dos meus livros publicados, e conhece como interpreto o caos deste mundo, onde convivem aspectos tão dispares como a fome, a opulência, o amor, a crueldade, onde os animais não estão entendendo nada dos outros “animais humanos”. Sim, a minha vontade é refletir este caos ainda não muito compreensível.
11) Sua arte ao viver o local, é uma arte que pretende absorver e mostrar o visível e o invisível de cada circunstância?
Já falei, que a minha maneira de abordar a pintura não é a representação da “realidade”. Acho que o mais interessante da arte é a possibilidade de penetrar na parte mais escondida dessa “realidade”, sempre aparente e epidérmica que não está refletindo a parte mais escura e mágica do ser humano. A arte questiona, faz perguntas, e deve ser inquietante ao espectador. A arte não dá respostas.
12) Outro comentário sobre sua arte é que “há sempre uma paixão figurativa depois de haver assimilado o expressionismo abstrato”. Sua arte é uma tensão entre a figuração e a expressão abstrata?
A muitas formas de representação, seja figurativa ou abstrata. A pintura tem os seus códigos. Eles lhe são próprios. A linguagem da pintura deve ser plástica, não deve contar nada, nem explicar também nada. O importante é que fique o espectador em uma catarse.
13) Passando para o lado figurativo, sua obra possui muitos retratos. Como sente este trabalho no conjunto da obra?
Quando comecei a pintar nos primeiros anos da minha vida estava interessado pelas paisagens, mais tarde comecei a namorar outras paisagens, para mim mais mágicas, e eles são os rostos dos seres humanos. Ao longo da minha obra sempre estiveram presentes, mais ou menos figurativos.
14) Além dos rostos, há uma potência do corpo humano sendo sempre retratada. Pode discorrer sobre isto?
Se diz que o rosto é o espelho da alma. Mas o corpo é a expressão da relação com o mundo exterior, com seu entorno, e fala da sua energia. Trabalhei muitas vezes com os corpos, a relação com outros corpos, das rivalidades, da sua relação com o sexo e com a vida.
15) Outro ponto que chama bastante atenção é a cor, o ritmo e a modulação dele nas relações internas da pintura. Como se vê sendo um artista de um colorismo tão intenso?
Adoro a fotografia em preto e branco, a intensidade que ela consegue e a sua profundidade. Em Salvador tive a oportunidade de conhecer muito mais, graças a Paulo Darzé, a obra magistral de Mario Cravo Neto. A pintura, eu acho que é outra coisa, bem diferente. No seu código as cores são muito importantes, assim como a sua relação e equilíbrio entre elas. Para mim é difícil entender a Pintura sem a participação de todas as cores.
16) Mesmo tendo um desenho importante e sendo um exímio colorista, sua arte é de transgressão no seu fazer, na sua expressão, na sua vivência. O que leva a este desejo?
Os artistas plásticos reconhecidos, antigos ou atuais, que passaram para a história, figurativos ou abstratos são mestres no desenho, que é primordial na pintura. As pessoas que habitavam nas cavernas, no período neolítico, antes de descobrir a escritura, já começaram a fazer nas paredes e tetos, maravilhosos desenhos de animais e deles mesmos. Se diz que o desenho é o esqueleto da pintura, mas sei também que podem viver separados, porém não se vai encontrar um bom pintor sem ter um bom conhecimento do desenho.
17) A tradição da arte valenciana e, por extensão, a espanhola é que traz o desejo de criar uma arte de linguagem eminentemente contemporânea? Ou a esperança da pintura?
Valência tem grandes artistas do Renascimento, do Maneirismo, do Romantismo e também mais atuais. É evidente que eles estão numa tradição espanhola, mas acho que o artista, em qualquer época, tem a vontade de ser universal, como foram estes e outros atualmente. O criador sempre tem a pretensão de abrir novos caminhos.
18) Esta é a sua primeira exposição na Bahia, após já ter mostras em São Paulo, Recife, Fortaleza. Esta exposição na Paulo Darzé foi feita pensando no espaço da galeria, na sua ocupação com grandes e pequenos formatos?
A Galeria Paulo Darzé é uma das mais lindas que eu conheço no Brasil. Estive na Galeria antes de começar o meu trabalho e ficar na Bahia. Gosto de criar a minha obra em grandes formatos, mas a Galeria tem as dimensões perfeitas para admitir os grandes, médios e pequenos tamanhos.
19)Junto da exposição, temos o lançamento do livro. Você sempre faz assim? Realiza a exposição e produz um livro, temos de Cuba e Mali, sobre este “estage”?
Sempre que é possível. É muito importante o lançamento de um livro que apresente as imagens não somente das obras da exposição, mas também de outras, muitas que formam parte da mesma série e que não tem espaço na mostra. Os livros são imprescindíveis para a história e também para os galeristas, os colecionadores de Arte, para os críticos e historiadores, e também para o Artista. Graças a Paulo Darzé vamos apresentar um magnífico livro editado pela Galeria, que assim manifesta a sua postura, o seu suporte na Arte Atual.
20) Como espera ser a receptividade de sua obra pelos baianos?
Para mim é uma incógnita. No Brasil já aconteceram varias exposições minhas em diferentes Museus e algumas galerias de São Paulo, com sucesso, mas a minha posição é de modéstia. Sempre se está disposto a receber qualquer crítica.
21) Com foi criar toda uma mostra e livro vivendo como baiano?
Eu falei no início de como gosto da aventura. Criar esta exposição no bairro de Nazaré, ao lado do Pelourinho, foi algo assim. Vivi todo este tempo com muita intensidade. O Centro Histórico é um dos mais lindos que eu conheço, talvez comparável com Olinda, no Recife. Integrado com os seus moradores fui sempre respeitado, porque sabiam que eu era tão perigoso como eles, só que as minhas armas eram os meus pincéis.
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| Depoimento |
| Uiso Alemany |
Toda a exposição Ladeira do Desterro, de Uiso Alemany, foi criada e realizada quando de sua permanência na cidade do Salvador, na rua que dá nome a mostra, no Centro Histórico, num atelier que já serviu de local de trabalho para outros artistas, como Emanoel Araújo e Siron Franco. Sobre este período, a sua relação com os baianos e com a obra que veio a criar, escreveu:
“Aqui o dia começa quando ninguém está preparado para isso.
São seis da manhã. O sol entra implacável, através das janelas do atelier.
Ainda na cama, os raios resolvem dar justo na minha cabeça, indicando-me o caminho para o chuveiro.
Desço a ladeira e atravesso a Rua Fonte do Desterro para alcançar a Baixa dos Sapateiros e o meu café da manhã. A esta hora tudo parece deserto, coisa preocupante. Só alguns moradores da rua ainda dormem e um outro caminha com passo vacilante e olhar turvo.
Nazaré é um bairro adjacente ao Pelourinho, onde está localizada a Ladeira do Desterro e o atelier onde trabalho. Algumas zonas do bairro, e em particular estas ruas, são conflituosas, habitadas e percorridas por sem abrigos com necessidades e estômagos vazios. Também por malandros e policiais. Em certas ocasiões escutam-se tiroteios. Quando caminhas por elas há que ter cuidado e confiar que uma bala perdida nãos e instale na tua cabeça e consiga aclarar-te algumas ideias.
Salvador tem essa complexidade que possuem as cidades de beleza extraordinária, e que não é fácil entender nem apreciar sem submergir e penetrar mais além da sua epiderme.
Neste cosmos coexistem os seres e as coisas mais incríveis, que se misturam com tanta naturalidade como se ignoram ou destroem. Neste cosmos é, mesmo assim, possível, encontrar na pessoa mais desabrigada que mora na rua, num gesto amável e indulgente para quem passa ao seu lado, ignorando-o.
Toda esta mistura de culturas proporciona um magma onde a arte, e em especial a pintura, encontra um território idôneo para se desenrolar.
Neste delírio pode-se ver através de um buraco um universo que transcende a realidade, e que mostra aspectos tão insólitos como desconhecidos. Creio que Salvador é o lugar da pintura.
É um luxo a possibilidade de aprender essa vida e esse ambiente com as mãos, como fazemos com a pintura, pois ambas as coisas são o mesmo”.
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| Crítica |
| por Justino Marinho |
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Com o título de “Uma Visão Gestual de Salvador”, o artista plástico e crítico de arte Justino Marinho escreve no livro "Ladeira do Desterro" para todos o que significa a arte deste pintor contemporâneo espanhol.
“É impossível olhar o trabalho de Uiso e não perceber o seu extraordinário poder de expressão. Sua obra exibe qualidades somente encontradas em grandes e raros artistas.
Valenciano, conhecedor de vários caminhos do mundo, acostumado a trabalhar em locais fora do seu habitat natural, ele traduz, desta vez, através da sua arte, impressões sobre Salvador. Uma cidade cheia de contrastes, povoada, em sua maioria, por negros e mestiços, com muitas tradições, crenças e um grande poder de seduzir os que chegam às suas terras.
Fundada em 1549, por Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, Salvador nasceu já como cidade, já capital, sem nunca ter sido província e foi por muitos anos a maior cidade das Américas.
Conta-se que, talvez, Tomé de Sousa tenha sido o primeiro visitante a apaixonar-se pelo local, como muitos após ele, pois disse ao funcionário que lhe entregou a notícia de que seu substituto estava a caminho: “Vêdes isto, meirinho? Verdade é que eu desejava muito, e me crescia a água na boca quando cuidava em ir para Portugal; mas não sei por que agora se me seca a boca de tal modo que quero cuspir e não posso”.
Obviamente que cada visitante tem uma visão e uma atração diferente sobre as coisas e os ares que encontram por aqui. Mas, certamente, ninguém chega à terra do Senhor do Bonfim e vai embora de maneira indiferente. Aqui existem coisas que só aqui mesmo podem ser encontradas.
Olhando a produção desenvolvida por Uiso, durante a sua estada em nossa cidade, alojado num atelier na Ladeira do Desterro, centro histórico da cidade, local que já abrigou o escultor Emanoel Araujo e o pintor Siron Franco, é fácil perceber que a sua maior atenção recaiu sobre a paisagem humana, a gente que vive nas ruas e que luta diariamente para se manter viva.
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Criação: P55 Comunicação
Consultoria: Claudius Portugal
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