Identidade Visual Paulo Darze

    Mario Cravo Jr

    Nasceu em Salvador, Bahia, em 1923. Escultor, gravador, desenhista. Entre 1945 e 1946, faz estágio no ateliê de Humberto Cozzo, no Rio de Janeiro, e trabalha no ateliê do santeiro popular Pedro Ferreira, em Salvador.

    Em 1947, realiza sua primeira exposição individual, no Edifício Oceania em Salvador. De 1947 a 1949, reside em Nova York (Estados Unidos), onde é aluno do escultor iugoslavo Ivan Mestrovic, na Escola de Belas Artes da Syracuse University. Neste período, entra em contato com Jacques Lipchitz e instala um ateliê em Greenwich Village, nas proximidades da Washington Square. De volta a Salvador, abre um ateliê-oficina, que impulsiona o movimento de arte moderna na Bahia.

    Em 1950, inicia pesquisa das fontes de artes popular e erudita, no Norte e Nordeste do Brasil. Quatro anos depois, gradua-se em Belas Artes na UFBA. De 1957 a 1967, dirige o Museu de Arte Popular de Salvador e o Museu de Arte Moderna da Bahia, MAM/BA. Ensina gravura e escultura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, UFBA, de 1960 a 1963. Participa do programa Artist in Residence, em Berlim (Alemanha), realizando várias exposições nos anos de 1964 e 1965. É doutor em Belas Artes pela UFBA, 1966.

    Em 1981, coordena a implantação do curso de especialização em Gravura e Escultura na Escola de Belas Artes da UFBA, em Salvador. Nessa mesma cidade, em 1994, inaugura o Espaço Cravo, no Parque Metropolitano de Pituaçu, com 50 esculturas ao ar livre sob a forma de objetos tridimensionais – estáticos, móveis e sonoros – , e uma galeria, que abriga os trabalhos do artista em várias técnicas.

    Uma permanente pesquisa. Uma vitalidade sem par na arte baiana desde que iniciou com desenhos e esculturas em 1938 sua trajetória nas artes plásticas. Esta trajetória o leva durante a caminhada, entre exposições coletivas e individuais e, principalmente, obras urbanas com esculturas de grande porte e murais, a representar o Brasil na XXX Bienal de Veneza, como escultor convidado, e na IV Exposição Internacional da Escultura Contemporânea no Museu Rodin, Paris-França, e ser admirado diariamente por quem vive e transita na Bahia, nas muitas obras públicas de sua autoria espalhadas em ruas, praças e avenidas.

    Mário Cravo Júnior não pára de produzir novos trabalhos. Agora são relevos em ferro, em cobre, e em latão. Este ímpeto, esta não acomodação, a certeza de luta e aprendizado na labuta incessante para criar a sua arte não o deixa quieto, e o que poderia ser o mais recente já está sendo ultrapassado pelo interesse vivo por novos materiais, em foco na sua atenção agora a pedra grafite, e dele a criação de pequenos objetos, relevos, esculturas. É um novo elemento e um novo desafio.

    Pergunto: Esta incessante busca de novas possibilidades, de criar e recriar, de fazer e desfazer, é uma não aceitação do seu próprio trabalho pelo desejo incansável de novos horizontes, uma rebeldia inerente a personalidade, ou uma briga permanente contra a acomodação que qualquer um pode ter ao não fincar-se num caminho já trilhado e de sucesso?

    É muito difícil este questionamento de se auto-referir. Todo questionamento sobre o processo de auto-definição, estas tentativas, acaba tratando do que gostaríamos de ser e não do que somos. É uma somatória e talvez eu deva isso a uma característica da minha personalidade. Sou essencialmente curioso. Isso faz parte da minha vida, e está na minha terra, na minha primeira infância, uma curiosidade que eu tenho pela mecânica, pelas instalações, pelas máquinas, os mecanismos, isso sempre foi para mim um momento de diversão e ao mesmo tempo, então como se eu tivesse um laboratório existencial, uma pedra filosofal.

    É uma espécie de uma procura de uma combinação que não existe, quem sabe, uma procura de mim mesmo, eventualmente achado, mas pelo menos procurado, mas é a procura de mim mesmo, o que no fundo é a procura de minha gente, do meu povo, da minha tradição, da minha civilização.

    Todas as vezes que fiz este questionamento de caráter social, sociológico ou antropológico, me vem à mente de que queiramos ou não, modernamente encarados ou não, nós somos ainda aqueles indiozinhos de Anchieta e de Vieira, nós estamos ainda, não sobre a proteção, mas sobre a sombra ou o reflexo de nossa tradição cultural, que implica no ser fundamental, ou como diria Rousseau, no paraíso perdido.

    Esse meu laboratório tem também a ver com este suposto mundo novo que é também o mundo velho. Nós falamos sempre neste paradoxo do que é o futuro. Quando se chega na minha idade nós temos a possibilidade de encarar o que é o passado, o presente e um pouquinho do futuro.

    Mas as coisas parecem que só acontecem quando acontecem, ou seja, a vivência e a experiência é uma somatória de um eventual fluxo da mudança para o enriquecimento do ser humano. Talvez seja através do interregno, do contraponto, que possa acontecer algumas das coisas que tentamos algumas dezenas de anos acontecer. Eu vivo nessa expectativa. Este é o meu temperamento. Eu sou um insatisfeito.

    Neste eu não aceito, a primeira vítima, vítima entre aspas, da minha rebeldia, sempre sou eu mesmo, porque se ela me compensasse, se ela fosse em si mesmo um objetivo, uma finalidade, mais do que objetivo, entendeu, eu estaria me elevando à categoria de super-humano. Pelo contrário, eu me sinto cada vez mais ligado a este processo de transição, de modificação, essa dinâmica. Talvez por isso sejamos tão ansiosos pela segurança.

    Eu me habituei ao risco de tentar. Não é superar a mim mesmo não, mas de “enriquecer” a minha própria experiência, ou seja, cada vez. Talvez seja como uma criança, ou aquela coisa simbólica da cobra comendo o rabo, e cada vez que eu mais envelheço mais jovem me sinto, e vêm naturalmente uns pensamentos deste momento, que são umas reflexões de um artista quando velho.

    E prossegue:

    Viver é transformar. Viver longos anos de vida é um exercício permanente de transformação e isto para mim significa a dinâmica da própria vida. Isto através de qualquer profissão. Mas como nosso ciclo é muito curto, para uns curtíssimos, mas outros, como no meu caso, que não é tão longo. Ao contrário. Depende de como você encara. Mas o que é realmente estimulante é encontrar receptividade na vida, a curiosidade da vida.

    Esta vitalidade que você vê é uma demonstração da continuidade, da intensidade que liga alguém ao nosso temperamento, a nossa sensibilidade, a nossa maneira de ver o mundo. Daí posso falar aos oitenta e cinco anos, que eu sinto energia, sou energizado por esse laboratório, esse número de materiais e de formas diferenciados, essa tentativa de combinações.

    Talvez a minha curiosidade seja um acompanhamento deste viver anexando sempre a cada dia uma nova combinação a procura do eterno. A coisa começa a se envolver e passa a não existir mais esta separação de gerações. São etapas que se fundem. É uma espécie de pragmatismo separarmos tudo em compartimentos. Acho que isso é um fluxo que recebemos, vindo mais ou menos por afinidades de cada qual, mas no fundo é um grande mar para navegarmos, ou que navegamos. Este mar é uma herança que recebe um do outro, que na realidade não tem começo nem meio nem fim, é um fluxo. Assim sigo o jovem velho ou o velho jovem, tanto faz como tanto fez. É minha maneira de ser.

    O passado para um homem que vive a extensão de vida que eu tenho é um mundo extremamente misterioso, indefinido de certa forma. Viver é uma permanente surpresa.

    Mário Cravo Júnior nasceu em 13 de abril de 1923, em Salvador, Bahia. Graduou-se em Belas Artes pela Universidade Federal da Bahia e em 1947 seguiu para os Estados Unidos como aluno especial do escultor iugoslavo Ivan Mestrovic, na Universidade de Syracuse. Com a volta, como docente livre, exerce interinamente na Universidade Federal da Bahia, a cátedra de gravura, talho doce, água forte e xilografia , sendo logo depois professor de nível superior na disciplina escultura em madeira, pedra e metais.

    Torna-se Doutor em Belas Artes e professor adjunto na Escola de Belas Artes em 1966. A partir de 1976 executa o projeto inicial de pós-graduação na área de artes plásticas. Em 1981 coordena a implantação do curso de especialização em gravura e escultura. Tudo isso na Universidade Federal da Bahia.

    Dentro do Espaço Cravo, Mário anda nos caminhos laterais da lagoa, e após mostrar o que está fazendo, de apresentar um a um os operários que o acompanham , diz:

    Eu aprendo com estes homens que estão a trabalhar comigo. Tem peças que eles contribuíram. Ou seja, é a inserção, o diálogo. Eu sinto o cuidado, a satisfação, o carinho com que eles participam do que faço, o que eles apreendem ao contribuir com um pedacinho, e isto vale mais, muito mais.

    Ao ouvir um comentário sobre o local, diz:

    É uma realização de um sonho em vida, este ateliê. Estou aqui há quatorze anos como se fossem quatorze dias e se este Espaço passasse a não existir amanhã eu lhe diria que estou plenamente satisfeito com a experiência e ainda vou mais um pouquinho, se tivesse que repetir eu não mudaria absolutamente nada. Não sei se isso é excesso de autoconfiança ou que coisa misteriosa é essa, mas é o que sinto. Mas eu estou com idéia de querer transformar isso aqui, o Espaço Cravo, num memorial, é a nova terminologia, e se for possível esta proposta, de com isto trazer uma experiência que tivemos cinqüenta e poucos anos atrás com a Lina Bardi, que tentamos, mas infelizmente não houve possibilidade, que é o processo artesanal de um centro de estudos em trabalhos artesanais, que é a possibilidade de fazermos um levantamento dos mestres artesãos e fazê-los produzir junto com jovens designers universitários.

    Quando será a próxima exposição? E os trabalhos serão estes em cobre, aço e latão, ou os em pedra grafite?

    No próximo ano. Na Paulo Darzé Galeria de Arte. Não sei como será, pois em cinco ou seis meses pode acontecer um outro elemento e mudar tudo. Minha disposição é sempre o momento. O momento em que se vive. Expor é nos expor. É nos desnudarmos para aqueles outros que se interessam, por você como homem, como artista, como criador.

     

    "(...) a obra de Mário Cravo Jr. é o resultado de uma correspondência real com o próprio meio. Fundamentada na exuberância das tradições populares baianas e continuamente ativada por um impulso experimental, ela adquiriu configurações demasiado versáteis nos aspectos materiais, técnicos e estéticos. Entretanto, essa desenvoltura múltipla caracteriza-se, como afirma Wilson Rocha, por sua natureza de ´pesquisa eminentemente plástica´, conduzindo o artista a um sentimento dramático da existência. Mário Cravo esculpiu em pedra, madeira, metais diversos, resinas de poliéster pigmentadas, obedecendo à natureza intrínseca de cada elemento, procurando introduzir, na visão ecológica que procura, os estímulos do espírito de síntese que marca o desenvolvimento da escultura moderna".

    Walter Zanini

     

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