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Uma nova geração surge. E seguindo passos das anteriores, traz nestes nomes artistas que escolheram a Bahia como sua casa. Um que vem se destacando é Jorge Morillo, que assina seus trabalhos como Almo. Nascido na cidade de La Ceiba, Honduras, aos quatro anos passou a morar nas Filipinas, de onde saiu aos quinze para estudar arquitetura e desenho industrial em Florença e Milão, Itália. Em 1999 vem morar em Salvador, Bahia, e aqui inicia uma trajetória profissional que o leva a realização de exposições, a vencer dois prêmios, e ter uma crítica elogiosa. Trabalhando agora com a Paulo Darzé Galeria de Arte, conheça neste Via e-mail do Informativo Janeiro/2010, o trabalho, a trajetória e o que o diz sobre sua arte Jorge Morillo, Almo.
1) O que sente no seu trabalho como herança da cultura hondurenha?
Eu nasci e morei em Honduras por um ano. Eu não tenho muitas memórias do meu país natal, porém, acredito que a minha descendência, de um lado europeia e de outra indígena, maia, influencie o meu desenho. É possível.
2) Quando foi o início do percurso que o faz sair de Honduras e o leva a viver na Costa Rica, Filipinas, Itália, e Brasil?
Em 1973, com um ano de idade fui morar na Costa Rica e permaneci com a minha família até 1976 quando o meu pai teve a oportunidade de morar nas Filipinas. Chegamos durante a ditadura do presidente Ferdinand Marcos. Eu morei na cidade de Davao, no extremo sul do país por oito anos e em 1984 me mudei para a capital, Manila. Em 1991 fui estudar arquitetura em Florença, Itália. Mudei-me para Milão em 1993 para estudar Desenho Industrial. Em 1997 me formei e por um breve período após a minha formatura, fui trabalhar nas Filipinas como consultor em design. Logo em seguida, voltei para Milão depois de ser um dos selecionados para fazer parte do primeiro estúdio de design avançado do grupo Fiat. Em 1999, com um forte desejo de criar no Brasil, decidi deixar a Europa e me aventurar na cidade de Salvador.
3) A Itália é o que o leva para seguir as artes plásticas. Mais precisamente Milão. Parece que isto tem vinte anos. O que o motivou neste momento para as artes plásticas? E o que fez como estudos ou pesquisas para iniciar? Há algum artista, através de sua obra, que o influencia neste momento para esta decisão?
Eu sempre gostei de desenhar. Era impossível eu não passar mais de dez minutos sem esboçar algo, e desenhava até no ar! Na realidade, as artes plásticas me acompanham desde que eu tenho memória. Nas Filipinas, a professora de inglês de minha mãe, por exemplo, é artista plástica. Alem de colecionar as obras da artista/professora, a minha casa sempre teve uma mistura interessante de objetos decorativos e de arte. Isso tudo me influenciou demais.
O país onde vivia, tem mais de oitenta dialetos, uma língua nacional e ainda falam inglês! Eu ouvia e falava cinco idiomas por dia e tinha colegas de origem espanhola, chinesa, americana, centro americano etc. E para melhorar ainda mais a mistura, eu vinha com a minha família para o Brasil todos os anos de férias, e no caminho parávamos pelo Japão, França, Estados Unidos e fui saboreando todas as diferenças sociais e culturais.
Quando me mudei para estudar na Itália, eu tive a oportunidade de viajar com mais regularidade, e me fascinava a experiência de um dia sair de Frankfurt e no outro chegar a Hong Kong. As mudanças eram chocantes. Comecei a entender porque as pessoas usam o termo “choque cultural”. E isso também me influenciou bastante. O meu traço e estilo sempre mudaram dependendo de onde eu me encontrava.
Milão foi uma grande surpresa para mim. Muitos me questionaram porque deixei uma cidade tão bela como Florença por uma cidade industrial e cinza como Milão. Acontece que fui muito bem recebido pela cidade. Milão não e uma cidade óbvia, é uma cidade para ser descoberta e eu gosto muito disso. Eu sou um observador. O curso de desenho industrial me ensinou a pesquisar, e soube aproveitar muito bem tudo o que me circundava. A atenção ao detalhe, é algo que sinto, devo ao Italiano e aos orientais.
O artista que me influenciou através de sua obra foi Gustav Klimt. Foi magnífico! Eu fiquei maravilhado com o frescor que os trabalhos comunicavam apesar de terem mais de oitenta anos de idade! Eu me encantei com o seu uso do ouro, dos ornamentos, das cores! O seu estilo foi uma revelação.
4) Quando foi realizada a primeira exposição e onde?
A minha primeira exposição foi realizada na única galeria de arte da cidade de Davao, nas Filipinas. Um artista amigo da família me convidou para uma exposição coletiva, em 1993.
5) São dez anos de Bahia. Neste período veio a ganhar prêmios e realizou exposições. Pode falar sobre isto?
Foi aqui na Bahia onde comecei a me dedicar e a levar mais a sério o meu trabalho. Comecei a desejar expor. Fui convidado para expor durante o Mercado Cultural. Eu também fiz uma exposição que me deu a oportunidade de mostrar os estilos diversos do meu trabalho no antigo Clube Baiano de Tênis, mas confesso que tinha ficado decepcionado e frustrado com a falta de oportunidades para expor o meu trabalho. O Salão Regional de Artes Plásticas foi uma grande oportunidade. Primeiro pela forma entusiasmada que os meus trabalhos foram recebidos. O curador selecionou todos os trabalhos que mandei e depois terminei ganhando o prêmio principal. O salão ainda me deu a oportunidade de conhecer outros artistas consagrados e isso me deu um novo estímulo a continuar trabalhando.
Outra consequência do Salão foi que alguns visitantes suíços viram o meu trabalho e me propuseram uma exposição. Dois anos depois, fui fazer uma exposição individual a convite da prefeitura da cidade de Delemont, capital da região das Juras, na Suíça. Eu também fui um dos vencedores do Premio Braskem Cultura e Arte em 1996, que além de ser um dos mais prestigiosos, me permitiu realizar uma exposição completa e individual, sem restrições financeiras. Pintei o espaço de preto, usei backlights, apliquei adesivos nas vitrines da Galeria. Foi um grande aprendizado e uma ótima oportunidade para promover e desenvolver o meu trabalho. Em seguida participei de algumas coletivas em Salvador e no exterior. Em 2009 resolvi comemorar os meus dez anos na Bahia, expondo trabalhos mais recentes e inéditos.
6) Hoje como cidade, gente e cultura, a Bahia está incorporada em seu trabalho de que forma? Cor? Tema? Pesquisa? Estudos?
A Bahia se incorpora ao meu trabalho de todas as formas. Tudo ao meu redor me influencia: a pobreza, a riqueza, a violência, a injustiça, a beleza do mar, da natureza que nos resta, a exuberância do céu, a mistura dos habitantes, os sons e ruídos da cidade, tudo termina afetando o resultado do meu trabalho. O dia-a-dia termina se comunicando no meu trabalho, seja em forma de texto, seja como imagens de situações. Eu me desabafo nos meus desenhos. A Bahia me encanta e me desencanta simultaneamente. Isso termina me dando intermináveis temas para ilustrar.
7) Quais os artistas prediletos hoje?
Os que me vem em mente neste momento são: Takashi Murakami, Ang Kiukok, Caetano de Almeida, Richard Serra, Lucian Freud, Francis Bacon, David Hockney, Jean Michel Basquiat, Tarsila de Amaral, Vic Muniz, Edward Hopper, Tunga, Andy Warhol, Beatriz Milhazes, Sophie Calle, Cindy Sherman, Elizabeth Peiton, Maurizio Catellan, Anish Kapoor, Chris Ofili, Bruce Nauman, Cildo Meireles, Paul Mckarthy, Jeff Koons, Chuck Close, Nam Jun Paik, Robert Rauschenberg, Gerhard Richter, Helio Oiticica, entre outros.
8) Seu trabalho tem como base um desenho minucioso e bem elaborado. É do desenho que parte toda a sua criação artística? Ou de uma temática?
É do desenho que parte toda a minha criação artística. Mesmo no caso de uma temática como as minhas cabeças, existe a silhueta, e no interior o desenho controla todo o percurso e conteúdo.
9) Com o desenho seu trabalho ganha uma composição e adquire símbolos e signos muito próprios. Pode falar um pouco sobre estes? De onde surgem estes símbolos e signos que povoam as cabeças?
Os símbolos e signos que povoam as cabeças surgem do quotidiano. Da nossa sociedade do consumo. Dos objetos que nos circundam, e que desejamos e acreditamos serem necessários. São objetos que ocupam gavetas, geladeiras, estantes, escritórios, praças e estradas, e que afetam os nossos dia-a-dia. Objetos que nos tonam mais felizes ou tristes e que vão se acumulando enquanto nós chegamos e partimos. Os símbolos e signos também não deixam de ser homenagens a nossa genialidade. Da forma que nos comunicamos através de língua falada, da beleza da escrita e do seu som. Eu homenageio a manufatura, o design belo dos objetos através dos meus desenhos.
10) Com os desenho e os símbolos e os signos, você chega a resoluções técnicas de fundo e de figura, num jogo de abstração no primeiro e de formas geométricas ou humanas no segundo. Como se estabelece este equilíbrio? Que recursos você utiliza para efetivar este contraste? Quais as resoluções técnicas fundamentais para estabelecer sua pintura?
O equilíbrio vai se estabelecendo com o passar do tempo. As camadas de tinta, as texturas que se formam e o vazio que permanece em alguns espaços, determinam o caminho na evolução do meu trabalho. Eu também estabeleci alguns ícones que termino repetindo nos meus trabalhos, como a cadeira, os números, letras e as silhuetas. Alguns trabalhos, e não importa a dimensão, levam até dois anos para serem concluídos. Eu uso os recursos da diversão, da pesquisa no uso dos materiais e de respeito total ao tempo necessário para uma obra ser concluída. E preciso estar com muitos objetos ao meu redor para estabelecer a minha pintura. Eu também gosto de trabalhar em mais de um trabalho, e chego a trabalhar até em cinco obras simultaneamente. Termina sendo um desafio divertido, o que é fundamental no meu trabalho.
11) Chegamos ao uso das cores. Há nos seus trabalhos muitos em preto e branco. Por sinal, muito bem realizados. É uma predileção trabalhar no p&b? Ou a cor também estabelece o desafio do trabalho?
Os trabalhos coloridos são, sem duvida, muito mais dinâmicos na sua realização. Mas no caso das obras em preto e branco, que são de ritmo muito mais lento, existe sempre a surpresa dos elementos que vão se materializando. Não tenho uma predileção nos meus trabalhos. Depende muito da vontade e do material que estou usando naquele momento.
12) Todo seu trabalho, seja em tela ou papel, é feito em acrílica? O que mais é incorporado como elementos para que ele exista, além da tinta, pois temos muitas das vezes incorporações ou referências neste suporte?
Todo o meu trabalho é feito em acrílica. Eu tenho o habito do acumular objetos, principalmente os que eu sinta que possam ser acomodados pelas minhas obras. São pequenos espelhos, cristais, metais, adesivos, transfers, medalhas, peças antigas, etc. Eu tenho mania por objetos que brilham e tenho que me cuidar para não levar para casa os cacos de vidro que encontro pela estrada!
13) Como sente seu trabalho no estágio em que ele se encontra? Que caminho sente estar percorrendo após dez anos de Bahia, dois prêmios, exposições, e uma crítica bem favorável?
Eu quero realizar mais exposições, e ampliar a minha rede de contatos no Brasil e no exterior. Os prêmios me dão força e segurança para continuar produzindo.
14) Por que a assinatura do seu trabalho tem como nome Almo?
O meu nome completo é Jorge Alberto Morillo Doria. Aconselhado por uma numeróloga chinesa, passei a assinar Almo que são as primeiras duas letras de Alberto e Morillo.
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| Crítica |
| por Justino Marinho |
As experiências do artista foram iniciadas na Itália, onde estudou design e realizou suas primeiras exposições. Mas o olhar de Almo, já conhecia terras como Honduras, Costa Rica e Filipinas e com certeza o fato de ter morado nesses países deixou em sua memória, símbolos e signos, que misturados aos que encontrou na Bahia renderam excelentes resultados.
Almo tem o poder de deixar o observador encantado com a habilidade de suas resoluções técnicas e infinitas possibilidades de criação. O refinamento e o equilíbrio do desenho, a utilização sensível das cores e a exatidão da composição mostram um artista maduro e capaz de unir razão e emoção na medida exata.
Em seus trabalhos, abstração e figura convivem em harmonia porque acabam se fundindo em uma forma de escrita, que na grande maioria das vezes registram objetos do cotidiano. São como cartas, escritas com carinho e habilidade para contar às pessoas suas notícias e seus sentimentos diários.
(Trecho do texto escrito para a exposição "10x20" realizada no Acbeu/Salvador, em julho de 2009)
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| Trajetória |
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Jorge Morillo, Almo, possui formação acadêmica em Desenho Industrial, Instituto Europeu di Design, Milão, Itália, concluído em 1997, e estudou Arquitetura na Universitá di Firenze, Facolta di Architettura e Politecnico di Milano.
Começa a expor em 1993, coletiva na cidade de Davao, nas Filipinas. Quatro anos depois, participa de mostra na Gakleria Tortona, em Milão, Itália.Sua primeira coletiva na Bahia é em 2002, na galeria Ebec. Seguem em 2003, Projeto Ambiências, Sala de Arte do Baiano de Tênis, Salvador, Bahia; 2004, Bienal Naïfs do Brasil, São Paulo, São Paulo; 2005, Salão Regional de Artes Plásticas, Centro Cultural Adonias Filho, Itabuna, Bahia; 2006, Galerie Zin, Délèmont, Suiça; 2007, Galeria do Goethe Institut, Salvador, Bahia; 2007, La Villa Bayard, Sierre, Suíça; 2007, Le Scandale, Genebra, Suíça; 2008, Galerie Zin, Délèmont, Suíça; 2009, Galerie Zin, Délèmont, Suíça.
Em 2007 realiza a primeira exposição individual, “Proximidades”, na Galeria do Acbeu, Salvador, Bahia, mostra do Prêmio Braskem Cultura e Arte. Em 2007 realiza “Proximitée", na Galerie Paul Bovée, Délèmont, Suíça; 2008, “Almo”, Hôtel de Ville, Fribourg, Suíça; e em 2009, “10 X 20”, Galeria do Acbeu, Salvador, Bahia.
Ganhou os Prêmios: 2005, primeiro lugar no Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia, Centro Cultural Adonias Filho, Itabuna, Bahia; 2006, Prêmio Braskem Cultura e Arte, categoria Artes Plásticas.
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Criação: P55 Comunicação
Consultoria: Claudius Portugal
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