news FEVEREIRO.10
 Notas

• A Paulo Darzé Galeria de Arte está aberta a visitação pública de segunda a sexta, das 9 às 19 horas, e sábados das 9 às 13 horas.

via e-mail André França  

Estreando em mostras em 2003, André França surge como um dos nomes de maior marca pessoal na fotografia. A partir de temas constrói séries, tendo como estúdio a rua, o instante do olhar criativo sobre o movimento do homem com suas ações sobre o espaço, e principalmente a relação com o tempo, matéria maior que busca apreender ao criar sua arte, que retrata essencialmente o ser humano, mesmo que estes não estejam necessariamente enquadrados como figuras no campo de visão. O Via e-mail, neste Informativo de Fevereiro, conversa com André França

1) O que é a fotografia para você? Trabalho, forma de expressão, forma de comunicação, arte?
Todas estas quatro coisas. E, também, uma forma privilegiada de conhecimento do mundo.

2) Qual o momento que você considera o seu início como fotógrafo?
Creio que posso considerar este momento como o ano de 2003, pois foi o ano da realização de minha primeira série fotográfica e também da participação na primeira exposição. Embora, evidentemente, já cultivasse o olhar e fotografasse há vários anos antes disso, mas de forma menos sistemática e planejada.

3) A fotografia é uma questão visual ou um domínio técnico?
É uma questão conceitual que se realiza através do visual.

4) Como é realizada a sua captação de imagens? Na sua maioria, são de rua, não são de estúdio. Ou o estúdio é a rua? Enfim, o que busca reproduzir nesta imagem quando captada?
O ambiente externo não é o “estúdio” pois não tenho controle sobre os elementos presentes: luz, vento, poeira, clima, etc (embora possa sempre decidir fotografar ou não). Fotografar em ambiente externo, como costumo fazer quase sempre, é apreciar a experiência deste conjunto de incertezas como campo constitutivo da imagem. As imagens são realizadas observando um projeto concebido conceitualmente e cada imagem corresponde a um fragmento metonímico do conceito central do projeto.

5) Há um tema principal na sua fotografia?
Há alguns temas recorrentes, que vão se impondo: a experiência humana enquanto vestígio, resto, sobretudo representada pelo campo dos objetos; a relação subjetiva com o espaço (pessoal, urbano ou natural); a passagem do tempo e seus efeitos.

6) Como é escolhido o tema que você passa a desenvolver? Há um projeto? Uma conceituação? Como constroi a sua temática?
Sempre há um projeto baseado em uma conceituação. Este projeto nasce inicialmente das minhas observações sobre a configuração atual das coisas no mundo e de minhas reflexões sobre a arte contemporânea. A partir daí, um tema é colocado em perspectiva, é investigado, num processo que também inclui a intuição e a subjetividade.

7) Suas fotos parecem criadas sempre como parte de um ensaio, e possui um tema. É verdadeira esta opinião?
Sim, é verdade; conforme descrevi nas respostas às questões 4 e 6.


8) A composição. O que origina a criação desta composição que temos na sua foto?
No nível formal, a busca do equilíbrio, da força, da harmonia. No nível conceitual, o caráter límpido, claro, do conceito.

9) A memória. O que é a memória na sua arte? O que é a memória para um artista como você? Uma de suas séries é a volta a um espaço de vivência 25 anos depois. O que significa esta série na sua arte?

A memória é um campo de permanente reconfiguração de registros de experiências. A fotografia se insere neste campo de maneira muito interessante e curiosa, possibilitando criar e fixar versões momentâneas deste processo contínuo de reconfiguração. Quando é realizada, a fotografia imediatamente instaura um vórtice de relação entre o tempo que se passou antes da foto, o tempo em que ela foi feita e o tempo que virá depois. Uma fotografia é um pequeno redemoinho de tempo aprisionado. E, como tal, se apresenta como um objeto que tem seus efeitos sobre os nossos processos de reconfiguração de memória. Com o passar dos anos, sendo muitos momentos esquecidos, uma fotografia pode se estabelecer como a versão oficial de um momento da narrativa de uma vida – o que nem sempre será verdadeiro. Uma das coisas que me levou a tornar públicas as minhas fotografias foi perceber que, sem isso, eu esqueceria cada uma delas.
A série “Quintal”, que você menciona, representa bem isso. Toda ela equivale a uma única fotografia deste espaço tão íntimo, mas em um tempo em que ele próprio não existe mais – e que logo deixará de existir mesmo como representado nas fotos. É como ficar em pé no turbilhão, olhar para trás e para frente, dentro daquele vórtice de tempo.

10) Que leitura você faz de suas fotos? Serão elas documentais?
Não as considero documentais. A fotografia documental está frequentemente associada ao registro objetivo, distanciado, de elementos da chamada realidade. Minhas fotografias são muito mais construções referenciadas no pensamento e na subjetividade.

11) Qual a distância, se ela existe, entre o fotógrafo e a foto?
No meu trabalho não há esta distância. Trabalho no registro que se convencionou chamar de fotografia de expressão pessoal.


12) Que influências você considera fundamental para vir a ser o fotógrafo que busca o humano, ou melhor, o tempo do homem?
Creio que são mais atitudes, disposições: o gosto por uma cadência mais lenta do fluxo do tempo, a observação mais atenta das coisas em volta.

13) Como vê a cena nacional e internacional hoje para a fotografia?
Com entusiasmo; a cena é muito vibrante. Fora do Brasil, há muitos anos a fotografia ultrapassou a discussão sobre o seu status enquanto arte e hoje é largamente celebrada através dos trabalhos de muitos artistas fotógrafos importantes, além de se apresentar fortemente consolidada no mercado de arte. No Brasil, há ainda algum atraso em comparação com a cena internacional, devido, provavelmente, a insuficientes investimentos públicos e privados em educação e cultura nas últimas décadas e ao tempo em que o país esteve mais fechado. Mas, sobretudo nos últimos 15, 10 anos, a fotografia brasileira evoluiu muito, afinando-se às práticas fotográficas da arte contemporânea e instaurando um mercado onde passa a ser comercializada pelas galerias mais importantes do país, exibida pelos nossos melhores museus e adquirida por antigos e novos colecionadores e apreciadores em geral.

André França
Uma das séries tem como título “Quintal”, onde objetos descartados de dentro da casa (ou será do ser?). É o espaço íntimo sendo revelado. Em outra ocasião, na série “art world”, o espaço urbano, o lado de fora. E para ainda outros momentos um olhar aberto sobre o provisório que nos traz a relação da arte com a cidade e com as pessoas, o movimento que advém do momento que por passar já é em si breve, contrastando o volume das formas e o seu vazio, e nele a contínua transitoriedade da vida. Mas só que por detrás de todas elas está o homem, tema de todas as fotos, no registro da ação deste homem na formação e formulação deste tempo, o mistério da existência, seja ela provinda da natureza, a linha do horizonte, ou criadas pelo uso, descarte, desgaste e surpresa que nosso olhar passa a ter ao ver estas fotos, onde o que há é a revelação do destino que o tempo destina a tudo e todos nós, o tempo da matéria e dos seres, e nestes ‘achados’ a construção não só das fotos, mas de uma visão de mundo.

 

 

Trajetória
André França é mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pela Universidade Federal da Bahia. Sua obra, formulada através de séries fotográficas, realizou em 2009: "Quintal"; Chorus of an old song; Sight for sore eyes; art world. Em 2008, Call me, love; Nightswimming; Dr. Freud's Vacation. Em 2006, Places to be alone. Em 2004, Seascapes;The Last Stop; Vessels; Houses and Time; Night in the Parke. Em 2003, The Same Sea. Realizou em 2008 a exposição Houses and Time, Galeria do Goethe-Institut, Salvador, Bahia, Brasil. Em coletivas participou em 2009: Circuito das Artes, Galeria do Instituto Cervantes, Salvador/Bahia. Abre Alas 5, A Gentil Carioca, Rio de Janeiro/Rio de Janeiro. Em 2007: Circuito das Artes, Galeria do Goethe-Institut, Salvador/Bahia. Em 2005: VI Mercado Cultural América Latina, Galeria da Cidade, Salvador/Bahia. E em 2003: Quatro Fotógrafos, Sala de Arte Bahiano, Salvador, Bahia, Brasil. É um artista representado pela Paulo Darzé Galeria de Arte, Salvador, Brasil.
 

Veja e leia os informativos anteriores

         

Criação: P55 Comunicação

Consultoria: Claudius Portugal