Identidade Visual Paulo Darze

    O povo, a paisagem e a vida na vila de Trancoso e arredores entre 1977 e 1993, compõem a exposição com 27 fotografias (sendo 4 impressas em alumínio de alta permanência, e as restantes emjato de tinta sobre papel de algodão, com qualidade museográfica,  nas dimensões de 60 x 90 cm), que João Farkas apresenta a partir do dia 14 de abril, até 14 de maio, na Paulo Darzé Galeria de Arte.

    A relação de João Farkas com Trancoso vem de longas datas, inteiramente verificado ao nos defrontarmos em suas imagens com a construção de casinhas de barro, a subsistência pela pesca, o lazer por meio da natureza, e um cenário da vida de um local pacato, através de seu povo, da sua paisagem e do seu cotidiano em imagens da vila de Trancoso e arredores entre 1977 e 1993.  Para o fotógrafo, a mostra, onde vemos um local pacato, tem o desejo que o hoje tenha orgulho deste ontem e reconheça a cultura local, além de alertar os turistas para a beleza e a magia, e que não se esqueçam de olhar o céu.

    Antonio Risério, em longo texto no livro, onde analisa antropologicamente e historicamente a região, inicia dizendo: “As fotos de João Farkas me tocam assim, simultaneamente, em três planos: o estético (lembrando-me uma observação de Victor Hugo em Os Trabalhadores do Mar: à beleza basta ser bela para fazer bem), o histórico e o antropológico, sem nunca eclipsar o presente. Deixo a leitura do plano estético para filósofos, artistas e críticos do fazer artístico. E me concentro no Brasil profundo da zona cabralina de nossa fachada atlântica, hoje tantas vezes transformado e desfigurado. Não para analisá-lo, obviamente, que isto aqui não é um estudo ou ensaio. Mas para tocar em alguns pontos memoriais e presenciais que as belas fotos de Farkas avivam”.

    Já Walter Firmo, um dos mais importantes fotógrafos brasileiros, também com um texto no livro “Trancoso”, escreve: “O brilho de Farkas é puro estado sólido do espírito lírico, direito clássico na maneira de olhar o valor das coisas dimensionando o simples e transformando o quase nada em tudo, isto porque o toque mágico da lira do povo - preciso e paulatino - mostra o afago da necessidade de se ver nenhum momento supérfluo, porém, intimista e revelador”.

    Quando da abertura será lançado nacionalmente o livro “Trancoso”, pela Editora Cobogó, com 128 páginas, projeto gráfico de Kiko Farkas, textos de Walter Firmo e Antônio Risério, e que contou com o apoio editorial da Paulo Darzé Galeria de Arte.

    João Farkas e a Bahia é um amor antigo. “Tem aí uma história boa também, um parentesco indireto com Jorge Amado, porque meu tio Joelson, muito próximo a nós (casado com a irmã de minha mãe, Fanny) era irmão de Jorge e James. E a Bahia sempre foi uma coisa muito presente em nossa família. Meu pai, Thomas Farkas, tinha um fascínio brutal pela Bahia. Perguntado certa vez quem ele gostaria de ser se não fosse o Thomaz, respondeu: Batatinha. Vim muitas vezes a Salvador com ele e me hospedei algumas vezes na casa do Rio Vermelho, tendo sempre a riqueza cultural baiana muito presente”.

    “Com Trancoso a coisa aconteceu na época da contracultura, após a ressaca da militância política. Foi uma descoberta do paraíso. E minha ligação foi imediata. Pensei em morar lá, comprei terreno, fiz casa e inúmeros amigos. Mas percebi que se morasse lá não faria o registro daquilo tudo que me parecia tão frágil e tão preciso. Aquele equilíbrio de séculos entre o homem e seu ambiente que nós mesmos os forasteiros acabaríamos alterando. Os fotógrafos que estavam por lá tinham as lentes mofadas e os filmes derretidos pelo calor. Era impossível trabalhar morando lá. Então eu virei um cigano que vinha sempre que possível e fotografava sistematicamente tudo: o trabalho, as festas, as casas, as pessoas. Fui aceito como uma pessoa local. Fotografava livremente”.

    “Então quando começaram a sugerir que eu fizesse exposição deste material e livro eu pensei que os primeiros que deveriam ver este material e poder usufruir dele seria a própria comunidade. Daí nasceu o projeto de um Memorial do Povo, da Cultura e da Paisagem de Trancoso. Um pequeno museu que inauguramos agora em março de 2016. Foram 30 obras doadas que estão expostas provisoriamente no espaço da comunidade, no centro de Trancoso. Esta foi minha doação a eles. Doei também o uso de minhas imagens da vila para usos culturais. Uma das sensações mais gratificantes de minha vida foi ver o pessoal de Trancoso curtindo a exposição, reconhecendo amigos e parentes, discutindo as fotografias e a forma de vida de então. Maravilhoso”.

    “Trazer isto a Salvador é outra missão, que o Paulo Darzé me ajuda a cumprir. A gente tem a sensação que a Bahia tem tantas coisas maravilhosas: a chapada, Itacaré, a costa do coco, do dendê, o recôncavo, a Baía de Camamu, é tanta coisa, tanta riqueza, que a região de Trancoso é mais usufruída pelos ‘sudestinos’ como diz Risério ou pelos franceses, italianos, holandeses e americanos do que pelos próprios baianos. É preciso incluir Trancoso na geografia dos soteropolitanos”.

    Texto de Walter Firmo - De Quase Nada, Tudo

     

    Ao pousar os olhos nas fotografias obtidas pela retina humanitária de João Farkas - numa memorável viagem aos confins de um paraíso terrestre em vias de extinção - penso no fazer fotográfico; ou como foi bom para a pintura o descobrimento da fotografia, uma vez que, libertada revelaram-se os Picassos e Dalis relegando o homem máquina fotográfica como um instrumento que se alimenta da realidade e que muito circunstancialmente nos devolve algo que vale a pena.

    A fotografia ainda é demasiadamente jovem (infinitos serão seus rumos) para um vaticínio seguro de sua maioridade como arte ou aquilo. Afinal o que é arte? Nestas fotografias tenho a sensação da gratificação do estar, do viver e isto me basta. O João é um emissário audaz, vigilante na arte de transmitir encantos mil a desafortunados cosmopolitanos. A função social da fotografia é também nos remeter o sopro da aragem e o doce perfume da felicidade e João segreda, na função decimal do segundo eterno "amém" folhas e sentimentos, luzes e arrabaldes daquela comunidade costeira arredia mas hospitaleira.

    O brilho de Farkas é puro estado sólido do espírito lírico, direito clássico na maneira de olhar o valor das coisas dimensionando o simples e transformando o quase nada em tudo, isto porque o toque mágico da lira do povo - preciso e paulatino - mostra o afago da necessidade de se ver nenhum momento supérfluo, porém, intimista e revelador.

    Visionário e carinhoso azuleja o singular na razão direta do cidadão que ama seu país, enaltecendo suas cores, expressando sua aldeia e sua gente, discursando o ambiente iluminado e as nuvens glorificadas; de quebra uma inesquecível aula de sociologia desnudando com elegância o caráter dos caboclos, mulatos e cafuzos "com todas as suas roupas comuns dependuradas salpicando de estrelas nosso chão".

    É ele quem diz: "Eu queria uma coisa que saísse do coração, não importava o tamanho." Aí a gente medita e também galopa o prazer do seu olhar, a candura, o mistério, ser feliz é estar, heróis de si mesmos, o riso, o digno, o gesto, a fatalidade de ser simples.

    Aliás, seu impiedoso olhar equilibra-se na fronteira do fio da navalha flutuando entre o simples e o simplório. Porém, nosso "intrépido" cavaleiro apeando o animal enleva e sublima o passeio – pé-ante-pé, de porta em porta - e empunhando o bisturi de sua intacta retina revela amálgamas da alma primeira valorizando olhos, caras e bocas, decifrando-nos num estudo psicológico "farkiano" toda a sofisticação do simples onde a crítica cede lugar à análise e as doçuras e sutilezas desfilam ao sol dará - pois foi assim que o artista escolheu.

     

     

    Texto de Antônio Risério  - Viajando pelas fotos de João Farkas         

     

    Não sou crítico de arte ou de fotografia, nem especialista no trato com linguagens visuais. Logo, que ninguém espere de mim uma leitura técnica, estrutural, das fotos de João Farkas aqui reunidas, focalizando justamente a região onde teve início a aventura criadora de um país chamado Brasil: formação de um “povo novo” (Darcy Ribeiro) composto de muitos povos milenares – na configuração de um novo mundo social numa circunstância ecológica específica.

    As fotos de João Farkas me tocam assim, simultaneamente, em três planos: o estético (lembrando-me uma observação de Victor Hugo em Os Trabalhadores do Mar: à beleza basta ser bela para fazer bem), o histórico e o antropológico, sem nunca eclipsar o presente. Deixo a leitura do plano estético para filósofos, artistas e críticos do fazer artístico. E me concentro no Brasil profundo da zona cabralina de nossa fachada atlântica, hoje tantas vezes transformado e desfigurado. Não para analisá-lo, obviamente, que isto aqui não é um estudo ou ensaio. Mas para tocar em alguns pontos memoriais e presenciais que as belas fotos de Farkas avivam.

    Fotos que, centradas no presente, nunca deixam de me remeter, como disse, ao passado, aos primeiros matizes da memória nacional brasileira. Ao ver esses corpos, esses rostos, esses gestos não deixam de me lembrar, por exemplo, da nossa primeira dança do encontro. Está na carta de “achamento”, escrita por Caminha. Conta ele que um certo Diogo Dias levou consigo um gaiteiro luso e se meteu no meio dos índios “a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita”.

    Assim, apesar da distância física e cultural que os separava – uns apenas pintados de urucum, outros envelopados em tecidos grossos –, aquelas pessoas chegaram a dançar juntas, de mãos dadas, ao som de uma antiga gaita lusitana. E nada nos impede de dizer que essa dança seria o modelo ideal e irrealizado de uma comunidade nacional, de uma sociedade fundada em termos fraternos e festivos, que infelizmente ainda hoje não aconteceu.

    De qualquer sorte, e ao contrário do que diz a lenda historiográfica, este povo, que revejo nas fotos de Farkas, tem muito de sonho e nada tem de degenerado. O Brasil não nasceu como país de degredados. É bem verdade que a armada cabralina não deixou apenas lembranças na atual região de Porto Seguro e do Arraial d’Ajuda. Deixou, também, dois degredados, a fim de que, aprendendo a língua e os costumes do lugar, viessem a ter alguma serventia futura, em função da conquista e eventual colonização daquelas terras. Conta-se que esses dois degredados, ao se verem abandonados no litoral ameríndio, naquela imensidão de céu e mar, desataram em prantos – e foram consolados pelos índios.

    Mas há duas coisas aqui. Naquela época, pessoas podiam ser condenadas ao degredo por motivos que hoje não fariam sentido algum. Por se dizerem videntes ou não acreditarem em Deus, por exemplo. Costumo lembrar isso para dizer que personalidades como Menininha do Gantois e Oscar Niemeyer, se eles tivessem vivido no século XVI em Portugal, poderiam muito bem ter sido condenadas ao degredo nos trópicos brasílicos.

    O outro lance é que nem todos foram degredados ou ficaram ali compulsoriamente. Na véspera da partida da esquadra, alguns marinheiros simplesmente fugiram das embarcações, mergulhando na noite tropical. Esconderam-se na mata, em alguma curva de rio ou nas malocas indígenas. Não mais desejavam seguir em direção à Índia, nem retornar a terras lusitanas. Haviam escolhido viver ao sol e à sombra do Monte Pascoal, circulando livres por aquelas praias claras, entregues ao doce balanço das redes tupis.

    Aos dois degredados, somaram-se então cinco marinheiros. E assim sete europeus passaram a viver no atual extremo-sul da Bahia. O que significa que aí tiveram início os processos de miscigenação e sincretismo cultural entre europeus e ameríndios na Terra do Brasil. Os índios não rejeitaram os forasteiros. E estes estavam já enfeitiçados pela beleza das mulheres indígenas. Lembre-se que, nem mesmo durante a celebração da santa missa, no ilhéu de Coroa Vermelha, o escrivão Caminha conseguiu desviar o olhar das coxas de uma jovem índia, que se estendia nua nas proximidades do altar.

    Aqueles índios eram os célebres tupiniquins, que ocupavam a orla hoje baiana, a partir da baía de Camamu. Mas eles não eram os únicos, nem tinham sido os primeiros habitantes da região. Os tupiniquins controlavam a linha litoral, expulsando dali outros agrupamentos indígenas. Despejados de suas terras, esses agrupamentos foram obrigados a se deslocar para o interior. Eram os aimorés ou botocudos, os maxakalís, os pataxós, os mongoiós ou kamakãs. Viviam eles em bandos, guerreando entre si e contra os tupiniquins, em terras interioranas que iam da foz do Jequitinhonha à do Mucuri.

    Depois da partida da armada cabralina, os contatos dos índios com europeus não foram interrompidos. Naus portuguesas continuavam desovando degredados ao longo do litoral brasílico. Algum náufrago contemplado pela sorte conseguia pôr os pés na praia. E não é nada improvável que o extremo-sul baiano tenha acolhido gente assim. Além disso, desde inícios do século 16, navegadores franceses começaram a percorrer com alguma frequência os nossos litorais, em busca, principalmente, de pau-brasil.

    Em 1504, por exemplo, a nau L’Espoir, capitaneada pelo normando Paulmier de Gonneville, fez uma parada na região de Porto Seguro, por um tempo  suficiente para que os navegadores observassem ao menos como os índios dormiam e o que comiam. Mas a visita foi breve. Alguns franceses que desceram da embarcação foram capturados. Outros, embora feridos, conseguiram fugir e retornar ao navio. Não se sabe o que aconteceu aos prisioneiros. É provável que tenham sido churrasqueados em cerimônia canibal. Não sem antes terem recebido, com era a praxe entre os tupis, uma jovem índia para servi-los, inclusive em matéria sexual – o que pode ter gerado mestiços franco-tupiniquins. O caso do Espoir não terá sido o único.

    E os contatos entre índios e europeus se intensificaram com a criação da feitoria de Porto Seguro. Com isso, a relação entre eles atingiu novo patamar. Na verdade, já não era simples contato, mas convívio. Com o passar do tempo, formou-se ali, no alto de uma colina próxima à foz do Buranhém, uma pequena povoação, embrião da atual Porto Seguro. E a vida foi rolando por aquelas praias e matas até julho de 1535, quando duas naus e duas caravelas chegaram à foz do Buranhém (do tupi ybyrá-nhê, ‘a madeira doce’), ao sul da Baía Cabrália. Era a frota de Pero do Campo Tourinho, primeiro donatário da – agora – Capitania de Porto Seguro.

    Tourinho logo se encontrou com João de Tiba, respeitado morador local. E partiu para fazer melhoramentos na povoação ali existente. Construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Pena, fortificou o vilarejo, abriu uma forja, montou um estaleiro. Ergueu vilas, como a de Santa Cruz. Distribuiu terras para os colonos abrirem suas roças. Autorizou a construção de engenhos para a produção de açúcar. E, diante da reação dos índios, tratou de celebrar acordos de paz. Graças a isso, os tupiniquins passaram a abastecer – com farinha de mandioca, frutas e caça – as vilas que iam brotando no território da capitania. E a se engajar nas expedições de pesca de seus moradores. A paz e a prosperidade premiaram a capitania por uns bons dez anos. Até que vieram os ataques dos aimorés. E instaurou-se o conflito interno entre o donatário e os demais poderes ali existentes, inclusive a Igreja. Uma disputa política que teve como desfecho a prisão do donatário, acusado de blasfêmia e heresia, naquele que foi o primeiro processo movido no Brasil pela Santa Inquisição.

    Quanto aos conflitos com indígenas extratupis, a história é longa e cheia de revezes para a capitania. Os tupiniquins foram perdendo ou abandonando as suas aldeias originais. Aproximaram-se das vilas, se misturaram geneticamente com os colonizadores, passaram a viver em aldeamentos missionários dos jesuítas, como o de São João Batista, criado em meados do século 16, que mais tarde se tornaria a Vila de Trancoso. Com a desarticulação dos tupiniquins, que mantinham à distância os grupos indígenas do interior, as vilas da capitania ficaram entregues às investidas desses mesmos grupos. Em especial, às dos aimorés ou botocudos, que atacavam de surpresa, incendiando casas e canaviais, para em seguida sumir nas matas. Uma guerra de guerrilhas que prosseguiu sem descanso durante todo o século 17. Vilas e campos eram assolados. Santa Cruz quase desapareceu. E o século 18 chegou sem que chegasse a paz.

    Decadência. No final do século 16, a capitania estava praticamente despovoada. E o panorama não vai sofrer qualquer alteração realmente significativa ao longo dos três séculos seguintes. Apesar de uma que outra rápida e pequena chama que se acendesse aqui ou ali, nada ia adiante. A paisagem era de ruínas. De vida vegetativa. De pobreza, doença e fome. Numa das regiões ao mesmo tempo mais belas e mais isoladas de toda a Bahia. Em inícios do século 18, um documento oficial registra a “notória e manifesta pobreza” da região, com as suas vilas costeiras acuadas em estreitíssima faixa litoral. No final daquele mesmo século, o quadro permanece sombrio, em contraste com uma paisagem natural cheia de luz.

    A essa altura, a população reunida nas vilas e roças do extremo-sul era essencialmente luso-ameríndia. Túpico-vianesa ou minhoto-tupiniquim, para ser mais preciso, já que ali vinham se misturando, basicamente, naturais de Viana do Castelo, do norte de Portugal, região do Minho, e índios litorâneos. Uma população com predominância de traços indígenas em seus desenhos fenotípicos, como vemos ainda agora em algumas fotos de João Farkas: na textura e na cor dos cabelos, na coloração corporal, no repuxado asiático dos olhos. E era facilmente verificável, em contraste com a população do Recôncavo e mesmo de outros segmentos do litoral sul, da Vila de Valença ao arquipélago de Tinharé, a quase absoluta ausência inicial do elemento negro, fosse este africano ou nascido já no Brasil. O que ia conferindo características particulares de cultura às terras que desciam de Belmonte a Prado, em direção ao Espírito Santo. Características que iriam se acentuar com o tempo, consequência do isolamento regional.

    Em princípios do século 19, uma guinada na guerra contra os aimorés. Instalado no Brasil, o então príncipe regente João VI bateu forte na mesa. Não queria saber de grupos indígenas bloqueando a marcha da colonização. E assinou uma surpreendente declaração de guerra aos botocudos do Vale do Rio Doce. Aqueles índios foram atacados, cercados, destroçados. O processo colonizador avançava de modo irreversível. Militarmente. Em meados do século, já ninguém fala de índios vivendo livres e isolados naquele trecho do Brasil Atlântico Central. Mas as vilas da região permaneciam paradas no tempo.

    Porto Seguro – com o Solar dos Martírios, a Casa da Lenha e os bonitos sobrados da atual Avenida Portugal – era ainda um povoado pequeno. Vivia da pesca da garoupa, à sombra da Casa de Câmara e Cadeia e da sua matriz setecentista, erguidas ambas em praça-belvedere debruçada sobre a encosta, com vista aberta e limpa para o mar. Muita gente ali mais não fazia do que passar o tempo na vadiagem das canoas ou caçando nas matas dos arredores. De meados do século 16 era a Igreja de Nossa Senhora, construída pelos jesuítas no Arraial d’Ajuda. No século 19, como naquela época, faziam-se romarias para lá, passando por sua fonte de água milagrosa. Enfim, era como se o tempo não existisse.

    Santa Cruz Cabrália, com suas duzentas e poucas casas, parecia pertencer definitivamente ao passado. E entrou no século 20 como veio do 19. Em 1938, foi elevada à categoria de cidade – uma cidade de 856 habitantes, que vivia da extração de piaçava. Ainda na década de 1940, uns raríssimos privilegiados podiam alcançar Santa Cruz por via aérea, com algum teco-teco aterrissando em pista de pouso aberta em alguma propriedade particular, como a Fazenda Cabrália, no povoado de Santo André, com a sua bonita enseada, parte voltada para o mar, parte voltada para as garças azuis do Rio João de Tiba, antigo Sernambetiba – do tupi, çurunamby-tyba, o sítio dos pequenos mariscos chamados sernambis.

    Mas o que a quase totalidade da população local tinha à sua disposição eram os carros-de-bois e as canoas, que conduziam cargas e passageiros pelos caminhos de água do lugar. Ou o lombo de animais, avançando por estradas estreitas e muitas vezes enlameadas, pela margem da linha telegráfica que levava a Belmonte e Porto Seguro e até por picadas abertas no mato. E coisas semelhantes podem ser ditas de Prado, lugarejo iluminado a querosene, com seus canoeiros deslizando pelas águas do Jucuruçu. Foram exceções passageiras, nesse quadro, as cidades de Belmonte (alcançada pela expansão dos cacauais) e principalmente Caravelas, servida pela ferrovia Bahia-Minas, que a ligava a vários outros municípios, partindo do distrito de Ponta de Areia, antiga póvoa de pescadores, em direção à cidade mineira de Teófilo Ottoni. Além disso, fora escolhida pelos norte-americanos, durante a II Guerra Mundial, para abrigar uma base aérea – fato que lhe deixou de herança, no pós-guerra, um campo de aviação.

    Somente à entrada da segunda metade do século 20, a mudança se anuncia, se insinua e se inicia na região. Aos poucos, bem lentamente, mas sem retorno. Processo gradual e irreversível que aponta para a ruptura final do isolamento em que viviam as comunidades locais. Ruptura radical e definitiva com a vida estacionária e os modos tradicionais do viver no extremo-sul da Bahia, até então entregue a uma espécie de siesta secular entre a floresta e a praia.

    Mas a grande virada regional só vai acontecer a partir da década de 1970. Em 1973, são inauguradas a BR-101, que passa por Eunápolis, e a BR-367, descendo do antigo Ponto dos Quatro para Porto Seguro e Santa Cruz. Depois disso, a vida no extremo-sul jamais será como antes. No rastro das estradas, vieram as madeireiras, promovendo uma ofensiva predatória contra as matas locais. A pecuária se alargou de forma inédita, com grandes fazendas abrindo pastos e mais pastos para o gado. A corrida migratória e a especulação imobiliária não demoraram a aparecer e a se impor. O turismo se projetou com força total. A burguesia sudestina ergueu mansões em belos pedaços de praia. Tudo mudou.

    Nessa onda, os primeiros a chegar ali, chocando por seu comportamento e práticas os padrões e costumes das pequenas cidades da região, naqueles inícios da década de 1970, foram freaks e hippies, jovens curtidores criados ao som dos acordes dissidentes do tropicalismo e/ou vinculados ao movimento da contracultura, da variante brasileira da revolucionária onda jovem internacional, do underground. Dirigiam-se, de preferência, a Porto Seguro, Trancoso, Arraial d’Ajuda. A maioria, de passagem. Mas alguns foram ficando por lá. Como se ali estivesse, finalmente reencontrado, o paraíso terreal.

    A “vocação turística” do extremo-sul, de que antes ninguém ouvira falar, se foi impondo. Diversos fatores convergiram nessa direção. Praias cálidas e “virgens” contavam, sim – e muito. Contavam também as igrejas, os prédios públicos do período colonial, os antigos sobrados. Contavam a Mata Atlântica, as ilhas, os mirantes naturais, os rios. Contavam o Monte Pascoal e o parcel de Abrolhos. E além disso tudo, aquele patrimônio histórico, cultural e ecológico trazia uma aura única. Estava todo ele imantado por nosso mito de origem. Era o sítio primeiro do país. O berço esplêndido onde nasceu o Brasil. Mais: graças ao isolamento e à estagnação regionais, a paisagem era praticamente a mesma que fora descrita na Carta de Caminha. E até índios (“índios de verdade”) circulavam pelas praias dos povoados cheios de sol.

    Levas e mais levas de pessoas começaram então a tomar o rumo daqueles litorais, aonde já iam surgindo as primeiras pousadas e os primeiros restaurantes. Pessoas de formação e extração bem variadas. Artistas, empresários sudestinos e sulinos, aposentados, moças que andavam top less e mesmo com suas “vergonhas” à mostra, tocadas de leve pela brisa do mar, quase à maneira das jovens índias que afloravam na Carta de Caminha. E todos comprando o artesanato “xinguano” dos pataxós, que surgiu exatamente em função do turismo: um artesanato recente – copiado de outros grupos indígenas, via Funai –, que encontrou naquela época o seu nicho de mercado e, em resposta à demanda turística, não só gerou uma “aldeia” voltada para a sua produção e comercialização, como se diversificou ao ponto de produzir adornos carnavalescos.

    E o turismo decolou, redefinindo e impulsionando a economia regional. Turismo de lazer e turismo ecológico, principalmente. Hotéis, pousadas, butiques, shoppings, restaurantes e bares variavelmente sofisticados ocuparam a região. Casas chiques e caras passaram a pontuar o ambiente, com socialites e estrelas da cultura de massa aterrissando aqui e ali – para dançar, tomar um sorvete, comer sushi. Antigas aldeias missionárias (a “instituição total” de que fala Erving Goffman, em sua remota versão jesuítica), como o “quadrado” quinhentista de Trancoso, converteram-se em points da moçada. Passaram a ter “vida noturna”. Receberam equipamentos impensáveis pouco antes, como o do parque aquático do Arraial d’Ajuda. Ao tempo em que veleiros, escunas e iates cortavam o azul das águas cabralinas – e ultraleves brincavam no azul do céu.

    Para que se tenha uma ideia, no ano de 1998, os municípios de Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Belmonte – que, em conjunto, somavam cerca de 108 mil habitantes – hospedaram nada menos do que 765 mil turistas... Mudança profunda e abrangente. Espetacular. Para o bem – e para o mal. Houve a ampliação considerável da estrutura de comércio e serviços. Obras de infraestrutura urbana. Restauração de monumentos, sob a coordenação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. A construção da BA-001. Etc. E por aí empresas aéreas decidiram manter linhas regulares para o extremo-sul, com voos diários partindo de São Paulo. Na verdade, a terra que em 1500 recebeu as naves do capitão Cabral passou a receber, inclusive, aeronaves de Lisboa e Amsterdã. Aviões de grande porte com destino ao Aeroporto Internacional de Porto Seguro, então o terceiro do Nordeste em movimento de passageiros.

    Bem. Já me alonguei demais, entregando-me à minha viagem histórico-antropológica, provocada/deflagrada pela coletânea de retratos feitos por meu amigo João Farkas, que hoje encontro na praia de Busca Vida, litoral norte de Salvador. Farkas que continua clicando fina e incansavelmente a vida que vê ao seu redor, ou que o atrai para campos magnéticos como o garimpo.

    No caso do extremo-sul baiano, as pessoas que vejo nessas fotos recentes de João Farkas, descendem disso tudo que falei, ainda que de modo bem resumido. E descendem de muitas formas possíveis. Os brilhos das águas, as cores da casa, a luz das pessoas. Tudo me fala de uma região neo-indígena à entrada do século 21, com as lentes do artista voltadas para os estratos mais pobres que compõem a maioria da população regional, onde ainda hoje encontro crianças que, ao se referirem às bocas dos caranguejos continuam a dizer uma palavra tupi: poã.

    No meu escrutínio sociológico e nas minhas lembranças sociais, não posso ter dúvida alguma: o lugar era muito mais coeso e equilibrado em inícios da década de 1970 do que hoje. De lá para cá, o que tivemos foi um aprofundamento formidável das desigualdades e das distâncias sociais. Mas aquele povo continua lá – com a sua energia e a sua vitalidade. As fotos de Farkas nos mostram isso. Tudo, ali, ainda é um convite à vida.

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