Identidade Visual Paulo Darze
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    Entrevista

    Toussaint Mufraggi

    Você nasceu e vive na Córsega. O que a sua terra para a criação de sua arte?

    Eu trabalho todos os dias no espaço restrito de um pequeno canto da Córsega, em que passei toda a minha infância; entre a cidade de Ajaccio (a capital da ilha), onde morava com os meus pais e onde frequentei a escola, e o pequeno vilarejo de Villanova. Uma aldeia de poucas casas a treze quilômetros da cidade, isolada no maqui (a mancha mediterrânea de perfume intenso de resina e zimbro) onde passava com meus avós todas as minhas férias de verão. Ajaccio era nos anos 50 e 60 uma pequena cidade provinciana, e Villanova, um paraíso selvagem onde se mantinha uma vida agrária e pastoral digna do século 19. E nesse ambiente se desenrolou toda minha infância: um período o qual olho com uma recordação tenra e evanescente. Não é à toa que o escritor francês Jean Genet diz, “Criar é falar da própria infância”. E para mim, esse pequeno espaço encerrado entre a costa do Golfo de Ajaccio e de Lava e as imponentes montanhas do maciço do Lisa é o lugar onde descobri a vida. A minha terra é, sempre, o sujeito eterno da minha inspiração.

    É fundamental para exprimir sua arte este contato com a terra sua realidade e sua memória?

    Porque se eu devo me exprimir com sinceridade, devo falar ou escrever ou pintar sujeitos aos quais estou totalmente imerso. Descobri a vida tanto através das relações familiares quanto das amizades, afetuosas e sinceras. Cresci em um ambiente extraordinariamente belo, compartilhando a minha existência entre pessoas ligadas indissoluvelmente a sua terra e, ao mesmo tempo, à filosofia epicurea, em seu verdadeiro sentido semântico: saber gozar cada dia que passa. Assim aproximei os mistérios da vida e o sentido da existência, e através de olhares e sinais silenciosos eu aprendi a crer na força do Espírito. Cresci, mas nunca abandonei esse lugar, a não ser por conta do prazer da cultura e da minha necessidade de ver de fato os lugares e as obras dos artistas que amei: Paris por Picasso e Matisse, entre outros; Madri por Velásquez e Goya; Roma por Bernini e o barroco, e também por Michelangelo e Rafael; Florença por Brunelleschi e Masaccio; Veneza por Tiziano e pelo próprio fascínio dessa incrível cidade sobre a água. Mas em mim também existe um grande interesse pela abstração lírica estadunidense, por De Kooning, Rothko e pela pintura trágica de J.M. Basquiat. Resta o fato de que eu vivo e trabalho no vilarejo de Villanova. Do meu atelier, todos os dias, posso admirar o cenário eterno onde os meus antepassados passaram suas vidas trabalhosas, e onde faço uma pintura que aspira à própria eternidade. Enquanto escuto a música de Bach, consulto os catálogos do Centre Pompidou, me interesso pela obra de artistas contemporâneos a mim como Giuseppe Penone, Cildo Meireles ou Juan Munoz, e assim o tempo passa. Os apaixonados pela pintura me encontram enquanto estou no trabalho. Vivo da minha pintura: eu sou um pintor feliz.

    Quais as vertentes que considera importantes para o desenvolvimento e sua pintura?

    Meu desenvolvimento cultural ao longo dos anos me guiou, naturalmente, na direção do estudo de uma estética e de um mundo de ideias típicas do coração do Mare Nostrum (nosso mar: assim os antigos romanos denominavam o Mediterrâneo): a filosofia, a arte e o pensamento místico e, principalmente, o cenário de um mundo em que o Espírito se destrincha no meu espaço e a pintura participa de um certo modo a ilustrar a perenidade dos mitos fundadores. De qualquer maneira, pinto com a sensação de ainda viver as vibrações que a terra me transmite e que percebo desde a minha infância, e minha pintura pode dar memória àquilo que passou ou desapareceu.

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