Identidade Visual Paulo Darze
    Christian

    Entrevista

    Christian Cravo

    Opinião, ideologia, domínio técnico, olhar criativo. Como estúdio, a rua. Tema: o homem e seu cotidiano. São fotos de gente. Fotos com o desejo de oferecer imagens, que por seu ângulo e ponto de vista, enquadramento e expressividade da luz, capte o essencial em seus detalhes para revelar o drama das relações e do mistério dos seres humanos, transfigurando a realidade através de uma poética que modifique, diante do mundo visível, a fotografia denominada de documental, na busca do instante único — este instante que atrai e que nos é revelado em suas fotografias, o momento decisivo (um minuto depois já é uma outra coisa) da imagem na cena e no momento do homem diante da vida, e da morte.

    Christian Cravo nasceu em Salvador, 1974, tendo começado a fotografar aos 13 anos, na Dinamarca, onde viveu dos 10 aos 17 anos. De volta ao Brasil, inicia um trabalho como fotógrafo profissional, efetuando pesquisa no sertão baiano. Suas fotos possuem um reconhecimento nacional e internacional, já tendo recebido prêmios como o John Simon Guggenheim Fellowship, USA, 2001; Mother Jones Photo Fund for Documentary Photography, da Fundação John Simon Guggenheim; do Museu de Arte Moderna da Bahia; e Bolsa da Fundação Vitae. Suas fotos estão publicadas nos seguintes livros; “Irredentos”, “Salvador de Bahia, Rome noire, ville métisse” e “Espiritoculto”.

    1. Nas suas fotos temos alguns temas recorrentes como a água, a religião, o povo de vários países — Haiti, Índia, o continente africano e, obviamente, a Bahia. O que o levou a esta escolha temática. O que o direcionou para isto?

    Sou acima de tudo um curioso, um observador e me interessa temáticas que decifram o ser humano. No meu caso preciso trabalhar em cima de uma representação iconografia. A religião e a fé, assim como a água, representa o homem de uma forma embrionária. Não fotografo a fé e nem a água, mas sim o homem.

    2. Nas suas fotos há um revelar da “face oculta” através do misticismo, da dualidade vida x morte, do homem diante do mundo. Esta revelação é um dado consciente, buscado, visceral para sua arte?

    Como fotógrafo busco entender o homem através de imagens que se revelam no decorrer do meu caminho. Faço da minha visão um instrumento para contar uma história que é acima de tudo “humana”. A partir de temas definidos procuro representar o homem numa estrutura iconográfica.

    3. A fotografia possui uma potência visual, uma beleza gráfica e um tema, que podemos dizer, busca criar ou reproduzir a vida. Você vê estes três tempos como conflitos a serem resolvidos, ou eles existem concomitantemente para que possa exercer plenamente a sua arte?

    Não há conflito nenhum. Tento alinhar a estética, que é a representação iconográfica com a vida, que é a minha curiosidade.

    4. A sua fotografia é documental?

    Sim. A minha e todas as outras. A fotografia é acima de tudo um registro e por sua vez também um documento. Na metade do século 20 quando a fotografia ainda estava se definindo com conceito e expressão, poderíamos categorizar seu lugar.

    5. Sendo documental, vê nela também uma liberdade de criação?

    Liberdade de criação é necessariamente algo não figurativo, algo abstrato ou algo que existe somente na imaginação do artista? O mundo que fotografo é real, ele existe, mas é também fruto de uma imaginação que só existe em minha mente. Saio à procura de cenas visuais que correspondam ao meu conceito filosófico.

    6. Esta fotografia que registra é uma fotografia imparcial?

    Alguns puritanos tentam ser imparciais. Mas eu não acredito que isso seja possível. Não “monto” uma foto. Tento usar os elementos que são jogados na minha frente, mas vale lembrar que há uma pessoa por trás da maquina e que a pureza do fato “real” é envenenada pelos nossos valores e conceitos morais.

    7. Há um projeto para suas fotos?

    Sim, o de estar lá fora presente num mundo cada dia mais globalizado, homogêneo e asséptico. Busco um homem que está umbilicalmente ligado á sua natureza, algo cada dia mais difícil. Atualmente estou fotografando no Haiti. Neste sentido, vejo o Haiti como a expressão máxima da essência humana. Estamos falando de uma sociedade com características muito particulares, intensamente espiritualizada, repleta de simbologias, onde a falta de pudor do povo se apresenta por meio de elementos de grande pureza. E é a pureza nas relações do homem, na manifestação do seu credo que desperta meu olhar. A amplitude filosófica que podemos traçar a partir da existência humana no Haiti é algo perturbador e incrível.

    8. Fotografar é só uma questão visual, ou/e também uma questão técnica?

    A técnica é importante. Pessoalmente me irrita um pouco de ver o descaso de Verger para com a técnica. Se ilude quem diz que isso não afeta a estética e o impacto.

    9. Você considera fundamentais na criação de suas fotos estes dois estágios: a captação da imagem e a reprodução da imagem. Pode explicar como você os trabalha?

    A imagem nasce no momento do click. Esta é a matriz, mas no laboratório se faz a imagem que será apresentada. Tecnicamente o negativo tem uma latitude que lhe permite clarear ou escurecer algumas áreas dando assim um “mood” á fotografia. Parece algo simples, mas é incrível como este ajuste pode afetar o resultado.

    10. Que representa o laboratório para um fotógrafo como você?

    Para mim é importantíssimo, pois me coloca num encontro profundo com a imagem. No momento de captar a imagem não se tem tempo para raciocinar a fotografia. Às vezes tudo acontece numa rapidez enorme e tudo acaba antes mesmo sem você se dar conta. O processo do laboratório exerce uma psicologia enorme, pois ele te “recolhe” para fora do mundo onde você é obrigado a estar espiritualmente ligado á fotografia, vendo ela de fato renascer para você na escuridão da câmera escura. Isso é mágico.

    11. Estamos diante da fotografia digital. Qual a sua relação com ela?

    Eu poderia responder em duas partes. Para a fotografia como uma representação surrealista da vida, como um conceito, ou como uma representação imaginária, não há nenhuma diferença, pois a máquina fotográfica é um mero instrumento para captar a imagem. Já no sentido da técnica há um avanço enorme.

    12. A arte redime?

    A arte pode redimir quem a faz, mas acredito mais na força e o impacto dela nas pessoas que a vêem. Elas estão em geral mais abertas.

     

    (entrevista concedida em fevereiro de 2009 a Claudius Portugal)

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