Beatriz Franco
 Claudio Neri

O tempo e o mar operam uma extraordinária transformação: ossos se tornam corais, olhos se transformam em pérolas. Beatriz Franco tenta alguma coisa diferente: ela aproxima, num instante, capilares que sangram e um fragmento de céu. A nossa condição é Standing in the spaces na vibração de sentimentos e pensamentos que podem ficar próximos, mas não integrados.

Os dois pequenos olhos – cinza pérola e vermelho sangue –, contradizendo a si mesmos, me falaram de maneira sabia e um pouco engraçada: “A vida de todos os dias teve seu último poeta em James Joyce. Tem um valor e uma beleza fora de moda e difícil de conhecer. Sentimos muito, mas você foi longe demais, venha mais perto”.

Só me pareceu possível olhar para as quatro imagens de Ovos que não deitei de uma maneira: atravessando-as da primeira à quarta e, então, novamente, da quarta à primeira por um velocíssimo raio de luz de um sentimento. Em palavras, este sentimento vibrante e musical poderia ser expresso dizendo-se que a vida é sempre docíssima e sutil. Das imagens atravessadas começaram a surgir no ar em volta pensamentos e sensações: rejeição e medo; sedução e mistério; espanto pela crueldade de uma vida privada e íntima tão violentamente exposta; admiração. A beleza das cores rosa e cinza e pérola que, ao se fundirem, chegam ao branco, um ritmo lento de respeito, espera e esperança.

Claudio Neri
Psicanalista Italiano
(Sobre a exposição CalaFrio de Beatriz Franco, 2008)   

Fotografa e artista nascida em Salvador em 1976. Graduou-se em Psicologia em 1999. Autodidata, começa a fotografar aos 7 anos. Frequenta o atelier do pintor argentino Alejandro Kantemiroff com o qual desenvolveu o estudo do desenho como pesquisa e expressão do inconsciente, conceito que aprofunda nos anos seguintes no seu trabalho com a fotografia. Em 2001 começa a participar de diversas mostras coletivas e individuais (MAM-BA, Museu Afro-Brasil (SP), Bienal do Recôncavo, Goethe Istitut, Centro Cultural da Caixa, Aliança Francesa, Acbeu, Mônica Filgueiras Galeria (SP), entre outras). Beatriz é a artista mais jovem a figurar no livro "A História da Fotografia na Bahia 1839-2006". Seu trabalho está na coleção do Museu de Arte Moderna da Bahia. Em 2009 faz uma residência artística na Itália, prêmio concedido pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia. Em 2010 recebe o prêmio Brasil Arte Contemporânea da Fundação Bienal de São Paulo com o trabalho que desenvolveu na Itália. Em janeiro de 2011 faz sua primeira exposição fora do Brasil na prestigiada galeria Carla Sozzani em Milão. Beatriz é uma artista visual que utiliza a fotografia como seu principal meio de expressão criativa; seu trabalho está fortemente ligado aos conceitos de temporalidade, existência, inconsciente e simultaneidade, à relação do homem com ele mesmo e com a natureza, aqui entendida como espaço. A maneira como as sequências de imagens são compostas cria, muitas vezes, pequenos enredos onde "o detalhe pode significar o geral e vice-versa" (Roberta Gibillini, Itália 2011, sobre Beatriz Franco), sintetizando o pensamento de que tudo pertence a um mesmo macrocosmos o qual fazemos parte sem, no entanto, termos qualquer controle sobre ele. Conceito já presente na filosofia pré-socrática, quando Anaxágoras afirma pela primeira vez, no século V AC, que: “Não há átomo no espaço que não contenha o universo, nem universo que não seja também um átomo”. Assim estabelecendo um diálogo com o ser humano, com a sua presença na natureza, com a sua própria natureza humana, com o tempo, com a palavra.


Exposições individuais
2011 Sob o mesmo céu – MAM-BA, Salvador, Brazil
Il Mare Che Resta – Galeria Cândido Portinari, Roma, Itália
Il Mare Che Resta – Galeria Carla Sozzani, Milão, Itália
2008 CalaFrio – Mônica Filgueiras Galeria de Arte São Paulo, SP, Brasil
2001 Nunca Vi o Mundo – UEC, Salvador, Brasil


Exposições coletivas

2011 - Tio Ilar 4 - Atenas, Grécia
2010 - MAM-Bahia - Salvador, BA; Casa da Lapa - São Paulo, SP
2008 - IX Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual – Teatro Castro Alves – Salvador, BA
Oficina da Luz, São Paulo, SP
2007 - A Fotografia na Bahia 1839/2006 – Museu Afro Brasil – São Paulo, SP; Paulo Darzé Galeria de Arte – Circuito de Fotografia i-contemporâneo – São Paulo, SP; Art for Today - Galeria Acbeu - Salvador, BA
2006 - VIII Bienal do Recôncavo – Fotografia – São Félix, BA; A Fotografia na Bahia 1839/2006 – MAM Bahia – Salvador, BA
2005 - Art for Today – Goethe Institut – Salvador, BA; Empuxo – Circuito de Arte Eletrônica em Vídeo – áudio-visual Metamorfose. Galeria Acbeu – Salvador, BA
2004 - Art for Sale 2004 – Galeria Acbeu – Salvador, BA; 14 artistas da Bahia – Alliance Française – Salvador, BA; Visualidades – Galpão Santa Luzia – Salvador, BA
2003 - V Mercado Cultural Internacional – Centro Cultural da Caixa – Salvador, BA
2002 Mafagafas – exposição de fotografia junto às artistas Andrea May (desenho), Adriana Hitomi (vídeo) e Rebeca Matta (escultura) – Galeria Acbeu – Salvador, BA
2001 I Amostra de Arte de Santo Antônio de Jesus. Exposição de desenhos sobre negativo ampliados fotograficamente. Curadoria e organização de Marepe - Santo Antônio de Jesus, BA
Mestiçagem – exposição de desenhos sobre negativo ampliados fotograficamente – junto à artista
Andrea May, que apresentou desenhos plotados – Galeria Moacir Moreira, Theatro XVIII – Salvador, BA; Rádio Bazar – exposição coletiva, desenhos sobre negativos, projeções – junto a 17 artistas, entre eles: Caetano Dias, Ieda Oliveira, Virgínia Medeiros, Ayrson Heráclito, Gaio, Paulo Pereira, Marepe, entre outros – Estação Jequitaia – Salvador, BA; Sopro – exposição de fotos e frases integrada aos projetos Relato de Ossos Feridos, da artista Sandra Del Carmen, e Santa Fábula, de Marcondes Dourado – Teatro Gil Santana – Salvador, BA

 

 

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