Sante Scaldaferri
 Carlos Von Schmidt

Sante poderia, se quisesse, pintar sua Bahia com olhos de ´vendilhão do Templo´. Seria fácil e lucrativo. Não há, em nosso país, nada mais ´turístico e folclórico´ e pintável do que Salvador. Mas, Sante vai fundo. Ignora o decorativo dassituações, o colorido da paisagem. Mergulha no âmago do incons-ciente coletivo, buscando na baiani-dade do cotidiano motivação para suas coloridas fábulas. Sim, fábulas! À maneira de Esopo, de La Fontainne, Scaldaferri pinta as mazelas humanas. Ao contrário dos fabu-listas mencionados, Sante não atribui aos animais falhas humanas.Ao homem, ao gênero humano, confere características animais. Não foi por acaso que tomou o ex-voto como protótipo. O ex-voto não passa de uma representação. Ao acrescentar à forma humana do ex-voto o rabicó, Scaldaferri mais uma vez disse não às esópicas e fontenescas alegorias. O caráter porcino de suas criaturas é evidenciado com clareza. A visão do homem/animal da fábula que exige uma lição moral encontra no título das obras sua justificativa. Atento à história de seu povo, às raízes mais profundas do Nordeste,Sante é dos raros artistas do Brasil a expressar-se através de linguagem pictórica que hoje encontramos na Itália, na Alemanha, nosEstados Unidos e em outros países.Quando a transvanguarda chegou a nosso país, no inicío dos anos 80, a pintura de Scaldaferri já manifestava-se com a força e a liberdade de um Clemente, de um Salomé e de um Schnabel

Dia 30 de setembro, Sante Scaldaferri faz oitenta anos.
Com uma obra artística dedicada especialmente a pintura, tendo o seu começo nos anos 50, Sante vem construindo uma obra fincada nas raízes populares, mas que através de sua linguagem transfigura-se numa arte erudita, contemporânea, sem filiação a movimentos, ondas, modas, com um modo muito pessoal de tratar os temas por meio de uma estética própria, tendo o homem, social e político, crítico e ético, como o seu centro, dimensão crítica e visão de mundo.
O via e –mail de setembro, mais do que uma conversa com um dos artistas mais importantes na história da arte na Bahia, tendo realizado em novembro de 2006 individual na Paulo Darzé Galeria de Arte, presta uma homenagem a quem com coerência, atitude, disciplina, consistência, estudo, pesquisa, vem dedicando nestes cinqüenta e cinco anos de exposições a sua arte, de forma ampla, a um só interesse: o ser humano.

1) Sua pintura reúne a tradição, através da religiosidade, os ex-votos, também verificada na técnica, a encáustica, para uma recriação estética contemporânea tanto no seu fazer enquanto tema e matéria, quanto à criação de significados simbólicos. O que o levou, tendo estudado na Escola de Belas Artes da Bahia, lugar naquela época de excelência de um ensino clássico, a trilhar este caminho?

Na década de cinqüenta, a EBA da UFBA, fundada em 1877, seguia os padrões Escola de Belas Artes de Paris. O que se ensinava a partir do modelo clássico, eram as técnicas e as cadeiras teóricas da arte. Os professores falavam que a escola não fazia artista. A partir do contato com outros estudantes de arte de outros estados, através de congressos, e, o que naquele tempo se chamava “Embaixadas”, com o começo da introdução da arte moderna na cidade, realizada por artistas de fora da escola, a entrada da EBA na Universidade Federal da Bahia, a realização de concursos para professores, foram, entre outros, fatores que contribuíram para a introdução, não tranqüila, da arte moderna na escola. Pessoalmente, além destes fatores, o que me influenciou para seguir a temática da arte e cultura popular do Nordeste transfigurada e adotando uma linguagem contemporânea, foi a cadeira de Estudos Brasileiros, a leitura sobre os movimentos messiânicos e de autores brasileiros com esta temática.

2) Sua obra tem como tema de figuração raízes nordestinas, mas é uma pintura que cresce por trazer valores universais, valores humanos, uma discussão do ser e do existir. Se acha isto realmente verdadeiro, qual a preocupação central - social, filosófica, religiosa – que o levou e o leva a construir um trabalho com este pensamento e, consequentemente, com a visualidade que ele realiza?


O tema não é propriedade de ninguém. Você coloca uma cadeira em frente a dez artistas, e pede para cada um realizar um trabalho, no final, você vai ter dez trabalhos diferentes. Naturalmente, para a realização de uma obra de arte, além da parte criativa, você tem de reunir muitos fatores técnicos e teóricos, e, sobretudo, uma linguagem contemporânea. Aliado a isso tudo você necessita ter um discurso, um conteúdo. Eu me apropriei do ex-voto, que no meu trabalho é um signo/símbolo para expressar todo o meu pensamento, todo o meu sentimento. Certa vez, logo no inicio da fase antropomórfica, disse a um jornalista argentino que “Antes meu trabalho era ex-voto com cara de gente e que agora era gente com cara de ex-voto”, querendo significar que os ex-votos haviam assumido a condição humana para expressarem suas dores, ódios, amores, enfim tudo inerente ao ser humano. Quem tiver capacidade e se der ao trabalho de estudar toda a minha obra desde o inicio, vai verificar o seu conteúdo, social, filosófico, político não partidário, religioso, irônico e outras "cositas mas". Certa vez, uns turistas espanhóis ficaram entusiasmados com o meu trabalho, e não se cansavam de dizer que eu era “um expressionista brasileño”. A minha preocupação na construção deste trabalho, não só na fase da década de oitenta a quem você se refere, mas até hoje é o HOMEM.

3) Como desdobramento da pergunta acima. Sua obra transforma idéias em pintura? Ou a pintura é que vem transmitir estas idéias?

Uma coisa é conseqüência da outra.

4) Você é um artista contemporâneo, sem ser vanguardista. Faz uma pintura erudita com a origem popular. Dialoga e transcende assim estes pontos. É original vindo da tradição. Como e sente realizando uma pintura assim?:

Sinto-me bem porque consegui criar a minha própria linguagem, a minha própria e original escrita e por nunca ter feito nenhuma concessão.

5) Com diz Ferreira Gullar, sua pintura mostra "o brasileiro que o Brasil bonitinho procura esconder". Assina também esta frase /

Quem sou eu para contradizer um dos maiores poetas e críticos brasileiros.

6) Sua arte é a sua vivência? A sua realidade?

Claro. O artista tem de transmitir o mundo que o cerca através de uma linguagem contemporânea. A grande revolução da arte começou na segunda metade do século XIX com os impressionistas. Após veio o tripé que resultou na arte moderna com Gaugain, Van Gogh e Cézanne. Imagine um artista dizer, nos dias de hoje que é impressionista, cubista, etc, uma arte feita quando o mundo era diferente do de hoje. O artista tem obrigação de ter conhecimento da arte contemporânea que está vivendo e prever o futuro.

7) Há séries suas onde o homem é terrível e ridículo na sua vaidade e 'poder'. Esta ontologia está no tema ou na estética que você cria? O ser humano tem salvação?

Está sim. Tanto em uma como na outra. É claro que tem. Eu sou um otimista.


8) O real, ou a realidade, é um dos motivadores de sua pintura, o que leva alguns trabalhos ou fases ou séries a possuírem um caráter de denúncia, de artista engajado em lutas sociais ou políticas, no sentido de humanas. Estes assuntos estão inerentes a sua arte ou são preocupações do cidadão que se expressam, já que ele é um artista, na sua arte?

O artista é como outra pessoa qualquer, cada uma com um carisma, dado pelo Espírito Santo. O verdadeiro artista é um ser de uma complexidade muito grande, o que leva pessoas não habilitadas, a avaliações completamente equivocadas de seu trabalho, principalmente quando ele se expressa, através de qualquer linguagem contemporânea, mostrando a realidade, as denúncias contra as desigualdades sociais, de amor ao próximo, de mostrar a fragilidade do caráter humano, ou abraçar a luta dos menos favorecidos. Leva também ao surgimento de fofocas, invencionices e outras maldades. Ao contrario, são aplaudidos os que fazem “arte” de fácil leitura, ou quando obtêm um sucesso comercial se repetem por anos a fio. Nesta minha fase a que você se refere e que começou no inicio de 1980, à proporção que ela era divulgada através de inúmeras exposições, começaram os infundados ataque de que era uma arte de agressão e uma arte feia. Quanto à agressão na fase antropomórfica e principalmente nas exposições onde o tema era o caráter humano, não existia absolutamente nenhuma agressão. Eu mostrava o que não se deve fazer. Eu mostrava o mal para ser corrigido. Mas algumas pessoas se espelhavam nos trabalhos, e ai, sim, me agrediam. Quanto ao feio o crítico Aldo Tripodi na sua tese de mestrado sobre o meu trabalho, explica muito bem. Aflora-me a mente agora, o Arquiabade Dom Timóteo Amoroso Anastácio, OSB, que em uma de suas homilias, falando sobre a beleza e a sensibilidade, dizia, que ele via muita beleza nas telas “feias” de Sante. Eu por excesso de zelo nunca disse publicamente o que vou dizer agora.
Porém aos oitenta anos, e como você disse que não tem limite de espaço, tenho o direito de falar, não por vingança, vaidade, ou para mostrar que eu sou um pintor “porreta”. Não é nada disso. É para dar conhecimento do que ocorria com a minha fase antropomórfica ao mesmo tempo em que sofria terríveis ataques. Resolvi fazer uma lista das exposições individuais e dos prêmios que recebi deixando de enumerar a exposições coletivas importantes, exposições no exterior, etc que estão meu currículo completo à disposição de quem se interessar.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

1981 - Galeria Genaro de Carvalho - Salvador, BA
- Galeria Rodrigo M. F. Andrade - Rio de Janeiro, RJ.
- Galeria CEPLAC - Brasília, DF.
1982 - Museu de Arte Moderna - Salvador, BA.
- Museu de Arte da Universidade Federal - Fortaleza, CE.
1983 - Galeria do Centro Cultural Cândido Mendes - Rio de Janeiro, RJ.
1984 - Galeria Ars Artis - São Paulo, SP.
- Galeria Anna Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, RJ.
1985 - Museu de Arte - Salvador, BA.
- “As Tentações do Cristo (políptico) Museu de Arte Moderna - São Paulo, SP.
1986 - Museu de Arte Moderna (Destaque do trimestre) - Salvador, BA.
1987 - Montesanti Galleria - São Paulo, SP.
- Galeria Anna Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, RJ.
1988 - Choise Galeria de Arte - São Paulo, SP.
- Tereza Galeria de Arte - Salvador, BA.
1989 - Brasil Inter Art Galerie - Paris, França.
- Civica Galeria D'Arte, Città di Portofino - Portofino, Itália.
- Galeria Anna Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, RJ.
- Performance Galeria de Arte - Brasília, DF
1992 - Gaymu Inter Art Galerie - Paris, França.
- Ethinic Modern Art - Genebra, Suíça.
1993 - Galeria Anna Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, RJ.
- Galeria Sofitel - Prova do Artista - Salvador, BA.
1995 - Museu de Arte Moderna - Rio de Janeiro, RJ.
1996 - Museu de Arte Moderna - Salvador, BA.
2001 - Galeria Prova do Artista – Salvador, BA

PREMIAÇÕES

1981 - III Salão da Ferrovia – Rio de Janeiro, RJ, Referência Especial do Júri

1981 - Salão Nacional de Artes Plásticas – Rio de Janeiro, RJ, Referência Especial do Júri

1983 - 5a. Mostra do Desenho Brasileiro – Curitiba, Pr, Prêmio Secretaria do Interior

1984 - XVI Salão Nacional de Arte – Belo Horizonte, MG, Prêmio Centrais Elétricas de Minas Gerais

1984 - VIII Salão Nacional de Artes Plásticas – Rio de Janeiro, RJ, Prêmio de Aquisição

SALÕES E BIENAIS

1980 – Novas Obras – Museu Parreiras- Niterói, Rj

- II Salão Nacional de Artes Plásticas -Museu de Arte Moderna, RJ

- III Salão Brasileiro de Arte – Fundação Bienal de São Paulo, SP

1981 – 5ª.Exposição de Arte Brasil-Japão -Itinerante no Brasil e Japão

- “Pablo! Pablo! Uma Interpretação Brasileira de Guernica, FUNARTE – Rio de Janeiro, RJ

- III Salão Da Ferrovia –Rede Ferroviária Federal, RJ

- IV Salão Nacional de Artes Plásticas -Museu de Arte Moderna, RJ

1982 - V Salão Nacional de Artes Plásticas – Museu de Arte Moderna, RJ

1983 –VI Salão Nacional de Artes Plásticas – Museu de Arte Moderna, RJ

- XXXVI Salão de Artes Plásticas de Pernambuco - Museu do Estado, Recife,PE

- 5ª. Mostra do Desenho Brasileiro- Teatro Guairá - Curitiba, PR

- Panorama de Arte Atual Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP

1985 – VII Salão Nacional de Artes Plásticas – Museu de Arte Moderna, RJ

- XVI Salão Nacional de Arte – Pampulha, Belo Horizonte, MG

- VIII Salão Nacional de Artes Plásticas – Museu de Arte Moderna, RJ

- 3º Salão Paulista de Arte Contemporânea - Fundação Bienal, SP

- 18ª. Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, SP

1989 - II Bienal Internacional de Pintura - Moseo de Arte Moderno, Cuenca, Equador

- III Bienal Internacional de La Habana – Centro Wilfredo Lam, La Habana, Cuba

1991 - 21ª.Bienal Internacional de São Paulo – Fundação Bienal de São Paolo, SP

Tenho que acrescentar que fui o único artista baiano incluído no livro de Frederico Morais “O Brasil na Visão do Artista - O país e sua gente” no capitulo “Painéis da Sociedade Brasileira”, ao lado dos artistas mais importantes do Brasil. Se não convenceu aos meus detratores, se eles ainda existem, paciência. Digo que se eles ainda existem, porque o Homem Porco e a Mulher Porca eram os disfarces de Anjos Exterminadores que vieram cumprir sua missão e foram embora. Depois eu passei para outra fase. Desculpem.

9) Como é deflagrado os eu processo de criação? Há uma motivação declarada? Ou apenas trabalho? Ou sua forma de expressão com o mundo? Sua pintura envolve a sua personalidade? É a sua maneira mais profunda de ser?

Começa pelo criativo, na mente. As imagens vão se sucedendo. Eu vou mudando, acrescentando, até que a imagem esteja perfeita. Ai é só passar para o suporte. Ai reside outra série de problemas que só resolve é quem conhece técnica. Inspiração de nada adianta, e trabalho. O principal é você estar bem de saúde para pode executar.

10) Você chega na arte baiana num grande momento de Bahia, de efervescência cultural, onde esta terra era uma referência na cultura brasileira. Fale um pouco deste período, desta história que você não só vivenciou, mas viveu como participante, e por extensão, para concluí-la, dá para fazer um paralelo com os dias de agora?

Você está me pedindo para escrever uma tese. E concluí-la com um paralelo. Como vou fazer vou fazer um paralelo se a definição destas linhas, situadas no mesmo plano, nunca se encontram? Talvez possa como você pediu, falar um pouco deste que foi o grande momento da arte e da cultura na Bahia. Você falou com muita propriedade, foi um momento de uma grande efervescência cultural e uma referência da Bahia na cultura brasileira. Sem dúvida nenhuma, este período foi o do reitorado do Dr. Edgard Santos. Porém tenho que lhe avisar que não sou um saudosista, caso contrário não estaria fazendo arte digital, produzindo inforgravuras. Porém tenho saudades. Existe uma grande diferença em ter saudades e em ser saudosista. Mas para se ter uma compreensão do que ocorreu, primeiramente acho que devo falar da infra-estrutura que foi implantada no âmbito da Universidade Federal da Bahia e também do Governo do Estado da Bahia, com o Teatro Castro Alves e o Museu de Arte Moderna. O projeto inicial foi do arquiteto Alcides da Rocha Miranda, um dos maiores arquitetos brasileiros, e compunha-se de dois blocos e um “foyer”. Um dos blocos destinava-se ao ensino do teatro e ao outro ao teatro em si. O argumento da mudança para um novo projeto foi que o primeiro era muito complexo e demorava muito a sua construção. O atual é de autoria do arquiteto José Bina Fonyat e do engenheiro Umberto Lemos Lopes, que aproveitaram somente o “foyer” que já estava construído. Vitima de um incêndio no fim do governo Antônio Balbino, o pagamento do seguro foi suficiente apenas para reconstrução da estrutura, ficando assim o TCA carente de equipamentos para o seu funcionamento. Neste espaço começou a funcionar provisoriamente no Governo Juracy Magalhães o Museu de Arte Moderna da Bahia, que deveria possuir posteriormente uma sede própria. Após a conclusão da Avenida de Contorno e a restauração do Solar do Unhão, o MAM se muda para lá, também provisoriamente, porque naquele espaço deveria ser implantado o Museu de Arte Popular. O MAM prestou um grande serviço às artes plásticas baianas. Começou mostrando os artistas abstratos, completamente desconhecidos em Salvador. Depois com exposições de grandes artistas nacionais e internacionais, exposições didáticas e um grande programa votado para os jovens artistas. No seu amplo palco foi construída uma arquibancada e levada a cena pelos alunos da Escola de Teatro peças memoráveis como “A ópera dos três tostões” e “Calígula”. Foram inauguradas as Escolas de Teatro, Dança e os Seminários de Música, que mais tarde se transformariam na Escola de Música e a inclusão da Escola de Belas Artes na Universidade. O fantástico era a integração entre estas escolas, que sempre realizavam projetos em conjunto. Formou-se uma excelente orquestra onde foram incluídos músicos estrangeiros e os concertos eram na Reitoria. Foram apresentados ao público o que havia de mais atual na música internacional, ao mesmo tempo eram dados aulas para jovens instrumentistas que afluíam de todo o país. A Escola de Teatro recebeu inúmeros professores e artistas que trabalhavam ao lado dos jovens atores para lhes transmitir a experiência. Na escola além da leitura de peças havia todas as cadeiras inerentes a formação profissional. Havia uma professora, cantora lírica, que ensinava a impostar a voz, o ator em cena, projetava a voz, não gritava. Além de grandes encenações de peças clássicas e fundamentais para o ensino, dava-se muita importância aos autores brasileiros que iniciaram o nosso teatro. Por sua vez a escola de dança mostrou a dança moderna, também por nós desconhecida naquela época. Todos esses movimentos eram para a formação de jovens artistas e a nossa geração, hoje chamada de “Geração MAPAS” foi muito prestigiada em seus projetos e praticamente todos começaram ai sua vida profissional em suas respectivas áreas. Não falei dos nomes de nenhum artista ou professor, para evitar os costumeiros esquecimentos e procurei resumir ao que pude.

11) Você deve ser o artista baiano como maior fortuna crítica – de Clarival a Glauber, Ferreira Gullar a Mario Schemberg, Jorge Amado a Umberto Eco. Como é sua relação coma crítica, com comentaristas, e há critica de arte hoje? Dá para traçar um paralelo entre o início nos anos 50 e agora quanto a crítica de arte?

Lá vem você com os paralelos de novo. É verdade. Tenho guardado todas as críticas desde o começo e até hoje. Elas estão em uma grossa brochura. Não só os críticos, mas também, os colunistas e jornalistas sempre muito bondosos comigo desde o início de minha carreira. Tenho guardado em álbuns todos os recortes. Toda a minha carreira foi feita na base de concursos. Nunca fiz parte de “igrejinhas”. Mandava meus trabalhos para todos os Salões e aí a crítica nacional tomou conhecimento do meu trabalho. Hoje, em todo o Brasil, os jornais substituíram a crítica pelas reportagens. As reportagens são importantes porque, além de chamarem mais atenção, são publicadas fotos dos trabalhos, o dia, a hora e o local da exposição e o pensamento do artista. Já a crítica geralmente somente é lida por pessoas que lidam com arte. Deviam ter as duas. Aqui ainda, na área das artes plásticas, temos a coluna do crítico Aldo Tripodi.

12) Como anda a arte agora, na Bahia, e no Brasil, você que é essencialmente um pintor?

Não vou responder por que esta pergunta caberia aos pesquisadores, críticos, historiadores, etc. O tempo, com certeza vai mostrar. Aproveito a sua pergunta para falar de meu trabalho atual, porque as perguntas foram referentes à minha fase que vai do princípio de 1980 até 1999. Aliás, não vou falar, vou apenas ilustrar com meus mais recentes trabalhos em encáustica e Inforgravuras. Esclareço que as minhas inforgravuras não são resultados de efeitos de algum programa tipo fothoshop. Em todas tem a minha interferência manual.

Biografia

Nasceu em 1928 em Salvador, Bahia. Fez o curso de pintura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Tem uma participação atuante no desenvolvimento cultural da Bahia, começando a sua atuação no após-guerra entre os jovens que editavam a revista "MAPA" e continuando até hoje. Participou do "Cinema Novo" com pequenas cenografias e como ator em filmes de Glauber Rocha. É considerado um dos mais importantes e representativos entre os pintores brasileiros contemporâneos. Sua pintura alia uma arte erudita sobre raiz popular e reflete o drama e a tragédia do povo da região dos sertões nordestinos do Brasil. Sem ser um regionalista provinciano, mas unindo uma linguagem contemporânea a uma temática brasileira de religiosidade e cultura popular, consegue atingir uma leitura universal e realizando trabalhos de grande força, ao mesmo tempo em que cria com a sua linguagem um trabalho muito pessoal, criativo e inconfundível. Seu universo é fruto de um grande acúmulo de conhecimentos teóricos e de muita vivência pessoal nas fontes da região Nordeste do Brasil. Desde 1957 usa em sua pintura o ex-voto como signo-símbolo, numa transfiguração estética, dando assim uma contribuição à identidade cultural brasileira e ao mesmo tempo consegue expressar o seu próprio universo. Em sua última fase, que começa em 1980, os ex-votos assumem a condição humana para expressarem as fraquezas do caráter, os pecados, assim como suas alegrias e tristezas, amores e ódios. Numa forma mais ampla, o interesse maior de sua pintura é o homem. Em 1977 foi editado o catálogo "A Cultura Popular na Arte de Sante Scaldaferri" e em 1988 foi editado outro catálogo contendo toda a sua obra, em comemoração aos seus trinta anos como profissional de artes plásticas. Ambos contêm textos dos mais importantes críticos e intelectuais. Desde 1980 usa a técnica de encáustica e também usa ex-votos originais ou outros materiais acoplados à pintura. Participou e participa de Bienais, Salões, Feiras de Arte, Exposições Individuais e Coletivas no Brasil e no exterior. Possui inúmeros prêmios e extensa bibliografia a respeito de seu trabalho. Além de pintura de cavalete em várias técnicas, faz tapeçarias, cenários, cartazes, capas de disco, catálogos para teatro, painéis e ilustrações para livros e revistas. Seus quadros constam do acervo de museus e coleções brasileiras e de diversos países. Vive em Salvador, Bahia.

 

Rua Dr. Chrysippo de Aguiar - Corredor da Vitória, Salvador, Bahia, Brasil. 40081-310 -
Tel.: (71) 3267.0930 - paulodarze@terra.com.br

j