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Maxim Malhado realiza exposição de pinturas, desenhos, objetos, esculturas, com abertura no dia 30 de abril de 2009, das 20 às 22 horas, no Museu Regional de Arte (rua Conselheiro Franco 66, centro, Feira de Santana, Bahia), numa promoção da Universidade Estadual de Feira de Santana, Centro Universitário de Cultura e Arte, Museu Regional de Arte e da Paulo Darzé Galeria de Arte.
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Utilizando formas de expressão que o fascinaram no interior da Bahia e a lembrança de desenhos em paredes de casas abandonadas, estes repletos de memórias do Recôncavo Baiano, onde viveu, o trabalho de Maxim Malhado reporta-se do pulsar de uma curiosidade da infância, abarcando temáticas onde a sexualidade, a religião, a cultura, a vida social, se tornam processos para um presente que se materializa no desenho, na pintura, em objetos e instalações, através de um grafismo que revela num primeiro ponto uma poética de redescoberta de espaços, de reinvenção de formas, os modos de abordá-las, como resultado de sua pesquisa de materiais e pelo trabalho contato direto com a tela, o papel, a madeira, ou pelo olhar que convida que todos vejam as “coisas do mundo” com “agressividade de ser e de ocupar a imensidão da insatisfação”.
Nascido na cidade de Ibicaraí, em 15 de janeiro de 1967, começa a expor a partir de 1995, sendo premiado sete vezes nos Salões Regionais da Bahia. Recebeu 2001 o Prêmio Aquisição no VIII Salão do Museu de Arte Moderna da Bahia. Participou do Rumos Itaú Cultural (2001-2003) e da Bienal Internacional de Artes Plásticas de São Paulo (2004). Sua obra está nos seguintes acervos na Bahia: Galeria ACBEU; Projeto Salvador Porto e Mar – Codeba; Centro Cultural Danneman, em São Felix; Instituto Cultural Brasil-Alemanha/ICBA; Museu de Arte Moderna da Bahia.
Como você identifica no seu trabalho, seja no desenho, pintura, objetos, instalações, a questão da espacialidade?
Como numa MUDANÇA de casa, num DESLOCAMENTO, como fazer cisternas para achar água no nada. São essas questões dentre outras da física que me atraem em primeiro instante. O volume, a massa, a massa dos objetos, a questão de ocupar e desocupar um espaço, o meu espaço e o do outro e o silêncio que está no entorno — o vazio que é e o que fica — interior e exterior. Em segundo, respondo lembrando de uma exposição que fiz em 1994 em Sitio Novo, que chamava: "São João sem João, ai de mim sem João, sem Pedro e sem José, São João sem vocês, seu Flaviano eu quero uma bomba de 0,50 e de quebra um bolinho pra velar meu espírito". O espectador entrava no espaço às escuras, munido apenas com uma lanterna feita com lata de leite que teria que ser repartida com pelo menos mais três pessoas. Lá dentro tinha desenhos, objetos, instalações, tudo muito gráfico, talvez tenha sido aí meu primeiro contato com essa questão da espacialidade. De lá para cá vem se transformando de acordo principalmente com o próprio espaço.Tinha algo também ligado com as questões religiosas e sexuais que desenvolveria mais futuramente.
Este é o ponto principal da sua obra?
É um dos pontos principais da minha obra. Essa suave agressividade de ser e de ocupar a imensidão da insatisfação.
E nesta descoberta como se dá o ritmo, a organização formal por sua disposição, a harmonia das linhas e objetos, dentro deste espaço da obra?Essa harmonia não vem pronta, busco algo como os pedreiros, os carpinteiros, os mestres de obras. Encontrar soluções para algo que ainda não tem, virando as coisas aos avessos, dentro de uma necessidade que é real. As formas são construídas para observação. O ritmo e a harmonia se dão pela insistência, pela vontade e pela disciplina, buscando um PRUMO entre as linhas e entre os objetos.
É um trabalho que propõe eminentemente a descoberta do espaço?
Sim, como se estivesse diante do mundo pela primeira vez, como se fosse aprender a desenhar, pois não basta apenas observar as coisas, é necessário muito mais que isso. Em alguns instantes é preciso mesmo estar livre, sem um guia, livre inclusive do presente, só aí com o tempo que os objetos criam curvas, adquirem hábitos e costumes, descobrem jeitos dentro do espaço.
A descoberta deste espa ço leva a uma redefinição de significados?
Como disse, a depender de como nos prostramos diante da obra, ou do espaço instalado a mesma, a depender do sentido o qual olhamos, a depender do instante do espectador, do que ele traz como ferramenta e referência do mundo, diante disso, surgem inúmeras leituras e significados.
E neste espa ço redescoberto o que você traz como reinvenção das formas e de significados, que vêem a ser a sua arte, o que é que estas carregam de uma memória que você traz do interior da Bahia? Me atrai muito, por exemplo, a forma como os donos de padarias a lenha no interior da Bahia armazenam suas madeiras na frente de seus estabelecimentos, ocupando o espaço da rua, do estacionamento dos carros, interditando a passagem dos transeuntes naquele lugar. Observo esse comportamento e tenho registrado fotograficamente durante anos, e pude realizar parte desse projeto em 2003 no Instituto Cultural Brasil Alemanha (ICBA-Salvador) com o título “amassando a massa”, onde construí um cubo que fazia referência a casa, com uma única porta, por onde não se podia nem entrar e nem sair daquele espaço, ou seja, um lugar completamente interditado com gravetos até a porta. Em seguida pude realizar em 2003, numa exposição com curadoria de Waldir Barreto e Agnaldo Farias, sobre o desenho no espaço, uma montanha de madeira. Esse formato foi o que mais se aproximou do gesto popular. Antes pude construir outras instalações dentro dessa pesquisa, que remetesse de alguma forma a esse universo e levantasse outras questões do impedimento, como foi o caso do "mata-burro”, também realizada em Brasília. E em 2004, junto com Ieda Oliveira, realizamos uma mostra que levou exatamente esse título "IMPEDIMENTOS", onde apresentei um trabalho chamado, "Tá todo mundo desejando ser um animal, mas a maldade não deixa", no qual cada espectador que chegava na exposição recebia uma forquilha de madeira igual as usadas em animais a fim de impedi-los de pularem a cerca.
Esta condição de origem, a história dela, como está traduzida na sua arte?
Em 1995 realizei uma mostra em Sítio Novo, chamada “Nas canções do rádio”, onde o espectador ao entrar no espaço tinha a sensação de estar numa gaiola, numa armadilha, ou ainda num curral, em seguida levei essa mesma exposição para Feira de Santana, sendo que lá aumentei um pouco mais a quantidade de obras, devido ao tamanho do lugar. Então na entrada do centro de cultura construí uma passagem pela qual, somente por ela, as pessoas deveriam passar. Era uma espécie de curral. Uma cerca. Motivo esse que a diretora quis impedir a instalação da obra. Se não fosse a interferência do artista Juraci Dórea, não teria executado esse trabalho. São esses os elementos que de alguma forma trago no meu trabalho até hoje. Sua origem, sua história, o que permeia seu universo, principalmente o aspecto formal, trazendo de sua fonte confrontos com questões contemporâneas.
Este mem ória do interior é sua forma de expressão como tema de sua obra?
Sim, a fonte parte daí. É minha memória. Nasci no sul da Bahia, fui criado no Recôncavo baiano, e trago todas essas passagens. Por outro lado, acredito que não questões que se encerram por lá mesmo. Ganharam e ganham visibilidade em outros cantos também. Há uma comunicação, um diálogo, uma troca de experiências com outros mundos e outras expressões.
Há um tema determinado sendo visto na sua obra? Um tema religioso, social, sexual, cultural?
Além destes, tem ainda o universo da construção, da construção da casa, dos canteiros de obras. Desperta meu olhar a técnica utilizada para se tirar o esquadro (algumas madeira fincadas no chão presas com um náilon, rodeando o espaço, traçando um desenho maravilhoso no ar), depois tem o nível (com apenas uma mangueira plástica e água dentro dela), para em seguida levantar as paredes, ai entra o "prumo". São também elementos que desdobro e me aproprio desse universo.
Mas seja qual for o tema vemos na sua obra um trabalho eminente gráfico. Como se relaciona com esta opinião?
Às vezes quando não tinha estilete, e naquele tempo ainda não tinha mesmo, pelo menos não tinha acesso, era a gilete ou a faca que utilizávamos para fazer a ponta dos lápis, e na falta de qualquer um desses objetos, era nos dentes ou nas paredes que fazíamos. Desde então meu olhar era atraído pelas manchas pretas que ficavam nas paredes, pelos riscos, pelos buracos feitos muitas vezes a unha, os desenhos feitos a carvão. Em certo momento do meu percurso, desenvolvi uma pesquisa, fazendo um paralelo entre o que chamei de grafismo rural versus grafismo urbano. Em 1995 participei do meu primeiro salão, em Feira de Santana, realizado pela Fundação Cultural do Estado, apresentei três desenhos puramente gráficos, feitos com pastel seco, pastel óleo e grafite, e com ele recebi o primeiro reconhecimento, sendo premiado como destaque especial do júri. Então seja qual for o tema, ou técnica utilizada para realizar uma obra, essa coisa gráfica é sempre muito forte.
Também há na sua obra a pesquisa da madeira, criando objetos, e uma pintura em tela feita em óleo, e uma pintura em papel que é colada em placas. Dá par falar um pouco sobre cada um destes momentos?
Sobre a madeira, já há bastante tempo desenvolvo obras utilizando esse material, construindo objetos, esculturas, instalações. Desenvolvo desde 2005 uma série de objetos que o princípio de elaboração tem como pesquisa o PRUMO. As pinturas sobre tela a óleo e acrílica, assim como as pinturas sobre papel em técnica mista estão na maioria das vezes no universo da construção, na casa e seus espaços, nos equipamentos e objetos que servem na sua construção e também nos que servem como "enfeite", bem como os objetos utilitários, (paneleiros, filtros d'água, das dispensas, das gavetas e dos cantos). Tem também outras questões que podem ser vistas nas pinturas, algo como a questão sexual, principalmente nas com suporte em papel.
Nos seus objetos e nas suas instala ções, sinto existir uma procura da experiência física do espectador. O que não deixe também de ser uma questão do espaço na obra. Vê como esta minha sensação?
Com certeza, gosto de construir nos objetos, procurando uma forma que de algum jeito o objeto saia da parede, que além de ocupar o seu espaço ele também invada o do outro, que o espectador se redimensione dentro daquele espaço, desenvolvendo o olhar à "atenção" e ao "cuidado", para que de alguma forma, desperte o olhar para as coisas do mundo.
Como você identifica o ponto de partida para a criação de sua arte? O que o impulsiona? Como é o seu processo de trabalho? Que estímulo deflagra a criação de sua obra?
O trabalho. Como falei anteriormente, a respeito da disciplina, o contato com aqueles materiais de alguma forma abre um espaço interno, que de certa maneira facilita a elaboração de idéias. É na insistência que as coisas fluem. Não é na espera. É no trabalho contínuo, é na certeza do gosto do preto sobre o branco, e exatamente por isso que até os "acasos" surgem. Se não tiver esse convívio até a alma se ausenta. A certeza do querer, da vontade, antes de qualquer coisa, o estímulo surge pela necessidade da idéia se tornar coisa. O processo de trabalho acontece me tornando íntimo das coisas, das que de algum jeito apontam pra mim, o que chega sempre diz respeito àquele universo, porém recheado de novidades e segredos, que novamente requer cuidado e estudo, para depois solucionar a melhor forma, maneira de instalar a obra. Às vezes nada disso é preciso. Outras, o trabalho por si só acontece. E, outras, onde não tem mais necessidade alguma.
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| Crítica |
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Marcus de Lontra Costa
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Enfim liberta da pesquisa formalista e da temática auto-referencial, a arte contemporânea permite aos seus artistas restabelecer os liames com a História, e discutir aspectos relacionados com os costumes e a cultura humana. Assim, a sexualidade, a ciência e a fé readquirem a sua importância no contexto da arte, fazendo com que se crie uma espécie de poética do sensível que mescla técnicas e informações que refletem a perplexidade das ideologias e a inquietude do ser dos dias atuais. Com a crise das ideologias, cabe a arte resgatar o papel das utopias: o legado modernista, de indiscutível importância, indica-nos o caminho da razão como instrumento mais eficaz de superação da crise. A velocidade da informação e a globalização da cultura eliminou antigas referências sobre o centro e a periferia, criando uma diferente geografia onde cada núcleo carrega a sua própria marginalidade, metáfora de uma urbanidade que reflete cada dia mais a injustiça social de um sistema desprovido de sentido ético e caráter humanitário.
É nesse contexto conturbado do contemporâneo que a produção de Maxim Malhado se insere: as suas instalações aludem à religião, aos objetos de culto, aos tótens e, por extensão, à sexualidade e à perversão que pode ser encontrada nas garatujas infantis e no grafismo que revela uma poética de pequenas crueldades e doces belezas. Há, latente nas suas obras, uma espécie de apelo à ordem, uma organização formal que se realiza através da modulação e do ritmo. Extremamente gráfica, a obra de Maxim Malhado, em qualquer suporte, em qualquer técnica, aspira a uma espécie de serenidade atemporal, compreendendo a arte como atividade de essência do ser. Suas linhas, suas ripas, seus labirintos são metáforas de intrincado e surpreendente jogo em que se unem sensibilidade e inteligência, rigor e paixão.
Recife, fevereiro de 2001
COSTA, Marcus de Lontra. Estranha Geografia. In: MALHADO, Maxim. Intermédio. Salvador: Instituto Cultural Brasil Alemanha, 2001. folha dobrada il. p&b. color.
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